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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Bock: eterno capitão e goleador


Por diversas vezes rei dos goleadores tanto na Liga de Honra como na 2.ª Divisão e até nos escalões de formação ao serviço do FC Porto, Bock continua a ser, aos 36 anos, uma referência entre os tão raros goleadores portugueses. E por falar em goleadores, o avançado do Freamunde aproveita a conversa com A BOLA para enviar um abraço ao grande amigo... Nuno Gomes.

Recentemente, o avançado do Freamunde foi distinguido pelo Sindicato de Jogadores Profissionais de Futebol como o melhor futebolista do mês de Novembro na Liga Orangina, prémio que o deixou muito orgulhoso:

«É uma forma de reconhecimento do trabalho e fiquei muito feliz quando soube. Curiosamente, o prémio da Liga foi para o João Tomás, que tem 35 anos, ou seja, isto só mostra que a idade no futebol não conta.»

Não, a alcunha nada tem a ver com... cerveja

Fernando Jorge Tavares de Oliveira herdou a alcunha de Bock pelo pai, que também foi avançado e actuou noutros campeonatos e não deixa de brincar com o ‘nome de guerra’: «É engraçado porque parece marca de cerveja, mas nem gosto de bebidas alcoólicas, nunca bebi uma na minha vida. Não critico quem o faça, mas para ser sincero, eu nunca gostei.»

O capitão do Freamunde não perspectiva o final da carreira e explica a força da sua ambição e vontade de jogar futebol: «Sou um apaixonado por este desporto, pela minha profissão e pelo clube que represento. Além disso, tenho uma vida estável com a minha esposa e duas filhas e sinto-me feliz a fazer o que faço. Não faço planos de pendurar as chuteiras e acho que esta longevidade vem do facto de sempre ter levado uma vida regrada, sem álcool nem tabaco.»

Passado o Natal, Bock olha para 2011, deixa uma mensagem aos leitores de A BOLA e um abraço com destinatário muito especial, o capitão do Benfica, Nuno Gomes:

«Desejo um novo ano muito feliz, com paz e saúde para todos os portugueses, adeptos de futebol e leitores de A BOLA. Quero ainda aproveitar esta oportunidade para dizer ao meu grande amigo Nuno Gomes, que está a atravessar uma fase difícil na sua vida, com o falecimento do pai e poucas oportunidades para jogar, que é um campeão, um grande homem, profissional e futebolista e espero que continue de águia ao peito por muitos bons anos.»

Fonte: A Bola

sábado, 29 de maio de 2010

«Gostava de ter jogado neste Benfica»


O antigo internacional português Dimas elogia o futebol que valeu o título aos encarnados, fala de Mourinho (e de Itália), do futuro e da Académica, onde tudo começou.

- Gostava de ter jogado no Benfica 2009/2010?

Gostava, se bem que no meu primeiro ano de clube joguei ao lado de grandes jogadores, a equipa fez um excelente trabalho na Liga dos Campeões e partilhei esses tempo com jogadores de elite. Mas o Benfica desta época foi criado para grandes conquistas e jogou um futebol que admiro muito. Revejo-me naquele tipo de futebol.

- Chegou ao Benfica em 94, tinha o clube acabado de ser campeão. Iniciou -se, depois, uma fase conturbada, muitas mudanças de treinador... Percebeu depressa que só muito dificilmente iria ser campeão pelo Benfica?
O Benfica não só manteve a equipa que foi campeã como a renovou. Fizemos uma boa campanha na Liga dos Campeões. Mas a partir de certo momento, houve uma alteração na política das contratações, o que tornou muito difícil a criação de um plantel competitivo. Foi uma fase muito complicada.

- A maioria dos jogadores do Benfica nunca aderiu a Artur Jorge. Muitos foram os problemas de relacionamento entre treinador e atletas. Não foi o seu caso...
Artur Jorge é um dos grandes treinadores do futebol português.
Chegou ao Benfica com a imagem de rígido e disciplinador. Era essa a sua personalidade. Havia, sim, alguma dificuldade de aproximação e de comunicação. Penso que depois do problema de saúde, mudou, talvez porque tivesse passado a olhar para o mundo de outra maneira. Na minha carreira, foi um treinador muito importante. Marcou-me no Benfica e na selecção.

- Seguiu-se a Juventus. Foi uma transferência improvável?

Conseguir chegar ao Benfica foi uma surpresa, conseguir chegar ao Euro96, outra, portanto, estava habituado a surpresas. Tinha acabado de sair a lei Bosman, terminava contrato com o Benfica e a Juventus, após a lesão de um lateral-esquerdo, fez uma proposta. E um dia recebo um telefonema do meu empresário, Luciano d' Onofrio, para ir a Turim assinar. E foi a realização máxima da minha carreira. Participei em finais, alinhei ao lado de grandes jogadores.

- O del Piero ainda joga...
É um exemplo para qualquer jovem.

- Como foram esses tempos de Itália?
Para os italianos, eles e as coisas deles são as melhores do mundo. E quem chega é quase visto como um inimigo. Ainda bem que o Mourinho foi lá dar umas lições.

- Foi praxado?
Não fui bem praxado mas fui gozado, sobretudo por causa da comida. Certo dia pedi parmesão para por numa massa de peixe e pus uma mesa de 10 colegas a gozar comigo.

- Acha que Mourinho sofreu por lá mais do que em Inglaterra?

Não tenho dúvida. Em Inglaterra era visto como uma mais valia para o futebol inglês; em Itália, como uma ameaça.

- Viu o abraço de Materazzi a Mourinho?
Vi e é uma imagem muito marcante. Em Itália, há grandes rivalidades entre os clubes e nem sempre os protagonistas são os jogadores. Cria-se em cada balneário muita fraternidade. Talvez nestes dois anos de Itália Mourinho não tenha sido um homem feliz.

- Porquê?
Pela perseguição. Os ingleses apreciavam Mourinho; Em Itália, o
sucesso dos estrangeiros não é desejado.

- Jogou com ele no Vitória de Guimarães, foram transferidos para o Benfica no mesmo ano. Como vê a carreira do seu amigo Paulo Bento, que continua sem clube?
A carreira do Paulo seguiu uma sequência lógica. Embora muito
rapidamente, deu os passos todos, tendo em conta que já sabia que queria ser treinador. Esta época foi mal planeada e ele acabou por sair depois de ganhar alguns títulos. O meu palpite é que o Paulo tem estado à espera do melhor momento para escolher, porque quer escolher bem. Esteve vários anos num grande clube, sabe que neste momento, em Portugal, só poderá treinar os três grandes e que estes têm a porta fechada - o FC Porto ainda não a fechou, mas estará próximo de o fazer
- , e nesse sentido, a curto prazo, o Paulo vai treinar no
estrangeiro.

- Foi campeão pelo Sporting com Boloni. Qual foi o segredo dessa época?

A qualidade. O Sporting tinha uma grande equipa. Agora falta-lhe
qualidade. Sem qualidade não se vai lá.

- Que características melhor o definiam como jogador?
O espirito de sacrifício. Para mim cada minuto valia tudo, era uma entrega máxima. Não era tão bom tecnicamente quanto outros mas era muito esforçado e batalhador.

- Quer no Sporting quer na selecção foi substituído por Rui Jorge. Como viviam essa rivalidade?
Nunca houve rivalidade Houve sempre um enorme sentido de lealdade.

- Começou a carreira na Académica. É adepto do clube, treinado esta época por André Villas Boas. Este treinador está pronto para treinar o FC Porto?
O André trabalhou com gente de muito conhecimento e implantou na equipa da Académica um futebol agradável. É evidente que um passo tão grande não é fácil de dar, mas ele já trabalhou no FC Porto- além disso tem 32 anos e, portanto, é natural que a comunicação social lhe dedique muita atenção. Mas há mais Villas- Boas espalhados por Portugal.

- O que vai ser o seu futuro profissional?
Nos últimos oito anos preparei-me da melhor forma. Afastei-me
intencionalmente durante dois anos, mas o 'bichinho' voltou e agora estou pronto para arriscar de novo e preparado para assumir todos os desafios e todos os lugares no futebol. Neste momento sou agente de jogadores, mas não é bem a minha vocação. Sinto-me preparado para ser director desportivo ou para ser treinador - continuando na área da formação onde tenho a experiência acumulada na escola que dirijo no Inatel de Lisboa. O momento vai chegar, sei que já esteve mais longe. Tenho três ou quatro cenários, mas o que é para mim fundamental é ser
tido como uma mais-valia. E a Académica está sempre no meu horizonte. Foi lá que me iniciei como jogador, posso voltar a ter lá um novo início.

Fonte: Diário de Notícias

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Ronaldo também há-de ser como Figo


Carlos Godinho, de 60 anos, é o director desportivo da Federação Portuguesa de Futebol. Após ter cumprido o serviço militar, entrou na FPF há 29 anos, através de concurso público. Começou na área da formação de quadros e, em 1984, ajudou a criar o departamento técnico das selecções, com Carlos Queiroz, Jesualdo Ferreira e Mirandela da Costa, entre outros. Esteve com Queiroz nas conquistas dos títulos de sub-20 e desde 1991 ocupa-se da selecção principal – desde então, só não esteve presente num Portugal-Alemanha de preparação para o Euro 96, por estar num workshop da UEFA.

Actualmente, é o responsável por todas as selecções, mas, após o Mundial, deverá ficar apenas com a equipa principal, porque “a sobrecarga é grande”.

Depois de ter recusado convites de FC Porto, Sporting e Benfica e de quase ter saído para a selecção inglesa em 2006 (teria ido se Scolari tivesse assumido o cargo de seleccionador de Inglaterra), Godinho não se vê a fazer outra coisa até deixar a federação. Nesta entrevista ao PÚBLICO, feita antes do início do estágio na Covilhã, assume uma admiração especial por Scolari e defende que Cristiano Ronaldo vai ser um líder ao nível de Luís Figo.

Já tivemos o Figo, mas hoje o Ronaldo é uma estrela num mundo muito mais mediatizado. Isso coloca-lhe muitas dificuldades?
Sim. É bom, mas também tem pontos negativos. Quando se fala de Portugal, fala-se de Cristiano Ronaldo, como antes se falava de Figo. A pressão sobre Ronaldo é de tal maneira grande que nos obriga a ter muitos cuidados. Não podemos pensar só na selecção, temos de pensar na selecção e no Cristiano Ronaldo.

Isso significa blindar mais a selecção?
Sim, é exactamente isso. Vou dar um exemplo: fomos jogar à Finlândia em 2006. Havia cinco mil pessoas no treino e as miúdas estavam com uma tal camada de histeria que não se calavam e gritavam cada vez que o Ronaldo tocava na bola. Pedimos a um responsável finlandês para avisar que ou paravam de gritar ou tínhamos de fechar o treino.

Pode contar mais algum episódio?
É inacreditável o que as pessoas fazem e inventam para ter um autógrafo, uma camisola, um par de meias. Fazem tudo e temos de ter atitude proactiva para perceber o que vai acontecer.

Hoje não há Figo, Rui Costa, Couto. Tem-se discutido muito se Cristiano Ronaldo pode ser o líder da selecção…
Ninguém nasce ensinado na vida. Todos somos fruto do nosso percurso, por mais ouro que tenha o berço. O Ronaldo, como qualquer outro jogador, não teve a formação no berço. A formação dele foi feita gradualmente e com muita vontade dele. Hoje, mesmo nas conferências de imprensa do Real Madrid e da selecção, vê-se que é uma pessoa jovem diferente. Não é o mesmo que era há uns anos. O Figo que terminou a carreira não foi o mesmo que a iniciou. Estou em condições de dizer que o Cristiano também há-de ser como o Figo. É uma pessoa que está em crescendo. O que aconteceu é que com o Figo havia pessoas mais velhas, houve uma passagem de testemunho gradual, e quando chegou a vez dele estava preparado. O Cristiano foi lançado às feras. Foi considerado o melhor jogador do mundo e de um momento para o outro está como figura de cartaz e sem retaguarda. Cristiano Ronaldo está em progressão e quando ele sair as pessoas vão lembrar-se dele como hoje se lembram do Figo. Não se pode é pedir ao Ronaldo que aos 25 anos seja o que o Figo era aos 34. As pessoas têm de compreender.

Já esteve em más e boas provas. Qual é o seu feeling desta vez?
Passando a primeira fase, tudo é possível e a experiência que tenho é que o jogador português se agiganta nesses momentos. Se nos adaptarmos bem e estivermos bem mentalizados para as dificuldades (um país diferente, os adversários) que vamos encontrar, vamos passar e podemos ir em frente. O primeiro jogo é fundamental, mas não decisivo. Nenhuma equipa, nem as melhores, como Brasil e Espanha, podem dizer que vão ganhar. E já ganhámos à Espanha.

Já trabalhou com muitos seleccionadores…
Eu e Queiroz tratamo-nos por tu. Trabalhámos nove anos juntos, depois ele foi embora e agora este reencontro não foi fácil, porque os resultados não foram bons no início, mas felizmente compôs-se tudo. Felizmente estamos no Mundial, depois de algumas dificuldades internas, no jogo com Dinamarca e Albânia. Depois acalmou e fomos em crescendo.

Houve alguém especial?
Scolari foi a pessoa que mais me marcou. Tenho muito orgulho em ser amigo dele e ele ser meu amigo. É uma pessoa diferente, que faz dos afectos e da proximidade algo muito importante. E eu também sou assim, mais de coração na boca. Faz tudo pelo seu amigo, se for preciso até dá um murro. Quando ele chegou, perguntaram-lhe se queria continuar comigo, uma pessoa que tinha tido uns problemas uns meses antes [Mundial 2002]. Ele disse que enquanto não conhecesse não decidia. Passado um mês, disse que eu era com quem ele queria trabalhar. E jamais esquecerei isso.

O que destacava Scolari era a faceta de motivador?
O Carlos Queiroz também foi assim nos juniores, porque essa componente era muito forte. Éramos os pais dos miúdos, éramos uma família. No futebol profissional, é diferente. E os brasileiros também são diferentes de nós. Carlos Queiroz agora esteve muito tempo fora, vem de um país frio, como a Inglaterra, mas hoje penso que ele tem um grupo e as pessoas vão unidas para o Mundial.

Já teve convite de clubes?
Em 1996, fui convidado para o FC Porto pelo senhor Pinto da Costa. Em 2001, fui convidado para o Sporting por José Eduardo Bettencourt. E em 2004 pelo José Veiga para o Benfica.

Não aceitou porquê?
Em 1996, houve qualquer coisa que não percebi, porque as coisas estavam mais ou menos acertadas. Em 2001, porque tinha uma grande ambição de ir a um Mundial. Era a maior ambição da minha vida e não trocava um Mundial por um clube. Curiosamente, correu mal no Mundial e correu bem no clube, porque o Sporting foi campeão. Em 2004, não fui, porque não chegámos a acordo.

Arrepende-se disso?
Não. O meu caminho estava traçado desde o início. Em 2006, estive perto de ir para a selecção inglesa se o Scolari tivesse ido. É a primeira vez que estou a contar isto.

As pessoas vêem-no um pouco como o senhor selecção…
A selecção não nasceu comigo. Tem uma história rica desde 1921 até hoje, mas de facto o departamento nasceu com Carlos Queiroz e comigo. Ele saiu, eu fiquei. Fui um pouco associado a isso.

Vê-se como o pai dos jogadores?
Hoje já não tanto, porque há uma relação diferente. Como viu na relação com o Pauleta [durante a entrevista o antigo internacional telefonou a Carlos Godinho], até àquela geração os jogadores não tinham uma ligação muito forte com os seus agentes. Tinham agentes, mas a selecção era um caso à parte. Hoje têm agentes e muitas vezes não se libertam. Como em todo o mundo, havia uma maior proximidade dos jogadores com as selecções. Claro que continuo a ter excelentes amigos e excelentes relações com eles, mas especialmente com os mais novos já não é a mesma coisa. Há mais profissionalismo na gestão da carreira deles e muitas vezes já não passa muito pela relação directa.

Quer dizer que o ambiente é menos familiar?
Não. Quando eles cá estão mantém-se. Os novos são integrados, porque ainda temos gente como Paulo Ferreira. Deco, Ricardo Carvalho, Miguel, jogadores mais antigos que fizeram a passagem de testemunho. Mesmo o Cristiano ainda esteve com Figo, Couto e Rui Costa.

Mas quando diz que é diferente, traduz-se em quê?
Havia uma relação muito íntima entre jogador e selecção. Às vezes ligavam-me a perguntar: “Achas que vou ser convocado?” Hoje já não acontece tanto, porque está tudo muito profissionalizado.

Conviveu e convive com alguns dos melhores jogadores portugueses. Algum é mais especial para si, pela relação de amizade?
Tinha um grupo de jogadores que fizeram o Campeonato do Mundo de 1991. O João Pinto afastou-se depois daquele problema de 2002, mas somos muito amigos, apesar de não nos vermos muito. O Jorge Costa, Fernando Couto, Paulo Sousa, Figo, Pauleta, Ricardo, Paulo Ferreira, Miguel, Maniche. São jogadores com quem tenho uma relação mais próxima. Talvez o Pauleta, Figo e Couto sejam os que mantêm mais contacto comigo. Tenho boa relação com Costinha e Rui Costa, embora seja mais fácil com os que não têm ligações aos clubes, porque isso tira-lhes disponibilidade. Público

Fonte: Público

sábado, 15 de maio de 2010

João Alves. "Eu era cá uma peste... Mas agora estou melhor"

O luvas pretas já levantou cinco Taças de Portugal, a última delas há 20 anos, como treinador do Estrela.



A sua imagem de marca eram as luvas pretas, em homenagem ao avô Carlos, internacional português pelo Carcavelinhos e Académico do Porto nos anos 20 e 30, mas marcou o futebol português com a sua genial técnica. Deu-se a conhecer no Boavista, brilhou no Salamanca e encantou no Benfica.

A 14 de Novembro de 1970, ainda júnior do Benfica, começou a usar luvas pretas, dois dias depois da morte do avô. Em 1973 estava pronto para regressar ao Benfica, após uma época no Varzim, mas foi para o Montijo, a troco de 600 contos. Um ano depois (1974), Alves foi para o Boavista, onde fez duas épocas sensacionais com José Maria Pedroto. Venceu duas Taças de Portugal (a primeira delas resolvida com um golo da sua autoria, frente ao Benfica) e assinou contrato com o Salamanca. Em Espanha, expôs todo o seu (enorme) talento. Resultado: foi eleito o melhor jogador estrangeiro e o jogador mais regular da Liga espanhola por dois jornais daquele país ("Marca", de Madrid, e "El Mundo Deportivo", de Barcelona), batendo uma concorrência de peso, como Cruijff (Barcelona), Kempes (Valencia), Breitner (Real Madrid)... Esteve um ano no Benfica e regressou ao estrangeiro, agora para o PSG, de França. Fracturou a perna logo na terceira jornada (entrada duríssima de Genghini) e voltou à Luz em 1980. Lá permaneceu três épocas, como titular indiscutível, até atingir o ponto de ruptura com Sven-Goran Eriksson, que não o chamou para o onze titular nos dois jogos da final da Taça UEFA, com o Anderlecht. Acabou a carreira no Boavista, em Maio de 1985. Sempre com as luvas pretas, que só tirou quando abraçou a carreira de treinador, onde atingiu o ponto mais alto há 20 anos, com a conquista da Taça de Portugal, pelo Estrela da Amadora, numa final entre um clube de 1.a divisão e outro da 2.a (Sp. Farense), como ocorre amanhã, entre FC Porto e Chaves. É precisamente esse o ponto de partida para esta entrevista do i a João Alves.

Boa tarde João Alves. Falo de Portugal.

Pois, já percebi, pelo indicativo internacional (351).

E quero entrevistá-lo.

Tudo bem, mas aviso-o que estou na Suíça por causa do roaming.

Não há problema.

Você é que sabe. Diga lá então.

É tanta coisa que nem sei... Olhe, começo pela final da Taça de Portugal- -90.

Grande dia. Ou melhor, grandes dias. Foram dois jogos extraordinários entre Estrela da Amadora e Sp. Farense [1-1 e 2-0, com golos de Paulo Bento e Ricardo na finalíssima, três dias depois da final]. Muito empenho, muita seriedade e um Jamor a abarrotar, com invasão maciça dos adeptos dos dois clubes e até de outros.

Então?

Eu bem vi bandeiras do Sporting e do Benfica misturadas com as do Estrela da Amadora. Foi a verdadeira festa da Taça. Um momento digno do futebol português.

Do que se lembra mais desses dias extrafutebol?

De uma tarja enorme em que se lia "João Alves para Primeiro-Ministro", embora não me lembre se estávamos perto das eleições. E de uma cena inesquecível cá fora, depois de levantarmos a Taça, com os motards de Faro, que eram sei lá quantos, a fazerem um corredor gigantesco e a aplaudirem à medida que o autocarro do Estrela passava por eles. Até me arrepio todo só de recuar no tempo e rever esse episódio.

Com essa final, o João Alves levantou a quinta Taça de Portugal da carreira: quatro como jogador (duas pelo Boavista e mais duas pelo Benfica) e uma como treinador. Sabia que é o segundo mais condecorado?

Não fazia ideia, e quem é o primeiro?

O Pedroto, com seis (duas como jogador, ambas no FC Porto, e quatro como treinador, duas pelo FC Porto e outras tantas pelo Boavista, uma delas consigo na equipa).

Ah pois, então, mas quem mais? Foi um génio, um visionário.

Conheceu-o bem?

Devo-lhe muita coisa na carreira. Mas mesmo que não o conhecesse pessoalmente, vivi na sua época e é um treinador histórico para qualquer um. Ele fez do Boavista o Boavistão e do V. Setúbal uma equipa com nome na Europa que eliminou Inter e Liverpool. Duas equipas do meio da tabela que, de repente, ameaçaram os grandes e até acabaram o campeonato no segundo lugar (o Boavista em 1975- 76, a dois pontos do Benfica, e o V. Setúbal em 1971-72, a dez pontos do Benfica). Sem esquecer o trabalho dele no FC Porto. E sem esquecer que foi ele que me foi buscar ao Montijo e me levou para o Boavista, onde a minha vida desportiva ganhou outra dimensão.

Pois, daí foi para o Salamanca, não foi?

É verdade. Naquela altura as transferências dos jogadores portugueses para o estrangeiro não eram comuns, como agora. A saída era um acontecimento. Tirando as aventuras nos EUA [Eusébio e Toni nos Las Vegas Quicksilvers; Artur Jorge e Costa nos Rochester Lancers; Simões e Malta da Silva nos San José Earthquakes, José Maria no Toronto Metro], havia para aí uns seis na Europa [Humberto Coelho no Paris SG de França, Damas e Quinito no Racing Santander de Espanha, Carlos Alhinho no Racing White da Bélgica, Jordão e Bastos no Saragoça de Espanha]. E depois eu. O Boavista ganhou 12 mil contos do Salamanca pela venda do meu passe. Foi um óptimo negócio para todos.

E o que ganhou em Espanha?

Uma experiência sensacional. A liga espanhola era o campeonato mais charmoso do mundo, porque era o mais aberto aos estrangeiros, ao contrário de Itália, com as fronteiras ainda fechadas pela desastrosa campanha no Mundial-66 [a squadra azzurra foi eliminada na fase de grupos pela Coreia do Norte], e de Inglaterra. Aquilo em Espanha era um campeonato do Mundo domingo sim, domingo sim. Todos os fins-de-semana havia jogos com estrelas deste e daquele país. As equipas estavam bem reforçadas e isso animava qualquer um.

E como foi lá em Salamanca?

Tanta coisa. Na segunda época fui eleito o melhor jogador e também o melhor estrangeiro da Liga pela imprensa local, a "Marca" e "El Mundo Deportivo". Não me lembro agora qual foi o jornal que me designou o quê. Sei, isso sim, que eram classificações acumuladas, com as pontuações dos jornalistas de jornada a jornada, e eu ganhei, com direito a prémio e tudo.

E guardou esses troféus?

Claro. Estão lá na minha casa. Fazem parte da mobília. São uma relíquia. Nessa época fiquei à frente de nomes consagrados como Cruijff (Barcelona), Kempes (Valencia), Luís Pereira (Atlético Madrid), Breitner, Netzer. Eu sei lá.

Disse dois nomes do Real Madrid (Breitner e Netzer), um clube que certa vez (16 de Janeiro de 1977) lhe proporcionou uma alegria ímpar.

Rectifico: uma dupla alegria. Nesse dia, não só nasceu a minha filha como ainda marquei o golo da vitória sobre o Real Madrid no Santiago Bernabéu. E que golo! Um dos melhores da minha carreira. Aliás, nesse dia, estava endiabrado. Emocionado com o nascimento da minha filha, fiz trinta por uma linha, saltei, corri, fintei, defendi, ataquei. Fiz tudo e mais alguma coisa. E o golo. Fui eleito o melhor em campo [nota 4 do "El Mundo Deportivo", de 0 a 5] e o pobre do defesa esquerdo, que se chamava Janssen, teve de ser substituído ao intervalo porque não estava a conseguir impor-se a mim.

Mas então, e o Camacho?

Devia estar lesionado ou suspenso. Sei que nesse dia não jogou. E ainda bem porque na época seguinte calhou-me ser ele a marcar, num outro Real Madrid- -Salamanca, e ai Jesus. O homem era um lateral implacável, daqueles que não dava hipótese. Anos mais tarde, encontrámo--nos em Lisboa, com ele no banco do Benfica, e divertimo-nos a lembrar essas histórias da Liga espanhola dos anos 70.

Deu-se bem em Salamanca, portanto. E no Paris SG?

Entre essas duas aventuras, ainda joguei um ano no Benfica, mas não ganhei nada. Foi o ano do FC Porto. De quem?

Pedroto?

Pois claro. Quem mais? Só ele para me fazer passar um ano no Benfica sem ganhar nada. Foi então que apareceu o Paris SG e contratou-me por um balúrdio [32 mil contos]. Cheguei a Paris com o estatuto de estrela internacional, como o mais bem pago do plantel [50 mil francos por mês, qualquer coisa como 7600 euros]. O presidente deles [Francis Borelli] tinha acabado de me ver em acção na final do Torneio de Paris, em que o Benfica goleou o Estrela Vermelha por 4-0, e queria empurrar o PSG para junto dos grandes do futebol francês e também queria aproximar o clube da comunidade portuguesa em Paris, que vibrava com o PSG, criado apenas em 1970. Mas antes do PSG, o Bordéus estava na jogada. Dois ou três dias depois de saber dessa novidade, e comigo de férias em Roma, recebo um telefonema do tal presidente do PSG a dizer-me isto, aquilo, aqueloutro e lá fui para Paris.

E como foi?

Tenho boas recordações.

Mas então lesionou-se logo no segundo jogo?

Sim, sim, mas isso não invalida que não tenha gostado de ter vivido em Paris, não invalida não ter gostado de partilhar as emoções com os adeptos no Parque dos Príncipes. A lesão marcou-me. No joelho. Na cabeça. E no coração. Mas basta de coisas negativas. Vou contar-lhe uma história: na estreia, em casa, com o Marselha, e o Marselha de Trésor, Six, Linderoth e Temime [que acabaria por descer de divisão], o PSG ganhou 2-1 e eu joguei tão bem que o estádio todo, e falo de 40 mil pessoas [para o jornal "L'Équipe", foram 43 845], entoou o meu nome. Alves, Alves, Alves, até eu desaparecer no túnel de acesso aos balneários. Que coisa maravilhosa! Nessa semana fui eleito para a equipa da jornada, ao lado de um tal Platini, do Saint-Etienne. Os franceses sempre gostaram de médios ofensivos, com gosto pelo passe, pelo risco, pelo golo.

E no segundo jogo...

Em Sochaux sofri uma falta do Genghini, que me partiu todo em três sítios. Fui levado de helicóptero para Paris e fui operado duas vezes num curto período de tempo. Não houve maldade do Genghini, mas fiquei de fora dos relvados por cinco meses. Quando voltei, em Janeiro de 1980, já não era o mesmo.

Guarda rancor do Genghini?

Não. O Genghini ligou-me muitas vezes para o quarto do hospital a saber como estava e acompanhou a minha recuperação. Foi um lance fortuito, pronto. O árbitro é que nem assinalou falta, quanto mais mostrar um cartão, fosse de que cor. O lance foi bastante mediatizado, as televisões davam o lance da falta vezes sem conta e tornou-se caso nacional. Por isso, o árbitro foi irradiado. Sabe o que aconteceu?

Não. O quê?

Em Metz, já nos anos 90, quando eu já era treinador do Estrela e fomos participar num torneio indoor, daqueles de Inverno, quando acabou o jogo, uma pessoa veio ter comigo a pedir-me desculpa por não ter assinalado falta nem ter mostrado o cartão. Era ele, o árbitro. Foi um gesto nobre e corajoso da sua parte que muito me emocionou.

Por falar em emoções, a sua imagem estará sempre relacionada com as luvas pretas, tradição do seu avô, Carlos Alves.

Que sentimentos guarda dessa relação familiar?

São coisas inexplicáveis. De certa forma, fui educado por ele. No futebol. E também na vida. Os meus avós acompanharam-me sempre, tal como os meus pais, mas o meu avô incutiu-me o valor e o prazer do futebol. No final dos anos 60, o meu avô treinava a Sanjoanense e inscreveu-me no plantel dessa equipa porque eu tinha um certo jeito para a coisa.

Mas como é que a tradição das luvas pretas começaram?

Com esse meu avô, um dos grandes futebolistas da sua geração, com presença assídua na selecção, célebre por ter chegado aos quartos-de-final dos Jogos Olímpicos-28, em Amesterdão. Ele, na altura, jogava no Carcavelinhos quando foi jogar com o Benfica. Momentos antes, uma menina aproximou-se dele e pediu--lhe que jogasse com as suas luvas pretas calçadas. Ele, que era defesa, explicou-lhe que não poderia satisfazer o seu pedido, pois o futebol e o jogo em questão eram assuntos demasiado sérios para estas brincadeiras. A menina calou-se mas não desistiu. Ao intervalo, com o Benfica em vantagem, o meu avô descobriu dentro dos bolsos dos seus calções o pequeno par de luvas pretas que ela ali colocara sem autorização. O meu avô calçou então as luvas e começou a segunda parte. E não é que o Carcavelinhos deu a volta e ganhou jogo. A partir daí, o meu avô jogou sempre com as luvas.

E você?

Sempre tive receio, medo, de usar as luvas. Coisa de crianças, adolescentes. Sei lá, nunca me senti à vontade para usá-las. Mas a morte do meu avô mexeu comigo e o seu último pedido foi que a tradição das luvas passasse para mim. Dito e feito. Dois dias depois da morte do meu avô, a 14 de Novembro de 1970, num Malveira-Benfica (0-4), para o campeonato nacional de juniores, prestei homenagem ao meu avô. E decidi ser sempre assim.

Alguma vez marcou com a mão?

Não.

Algum árbitro chateou-o por usar as luvas?

Nenhum.

E agora?

Agora, vejo luvas por todo o lado, sobretudo no Inverno. Eu vestia-as em qualquer altura do ano.

Até na selecção?

Sim. E sabe quem me lançou?

Vou tentar adivinhar. A sua carreira é Pedroto, Pedroto e mais Pedroto. Portanto, Pedroto...

Bolas, já não se pode dar novidades a ninguém.

Acumulou 32 jogos, mas não jogou nenhuma grande prova. Como é que explica?

Não quero entrar por aí. Olhe, não vale a pena. Eram outros tempos, em que os jogadores do Sporting e do Benfica eram mal recebidos lá em cima, no Porto. Éramos cuspidos e insultados pelos adeptos nos treinos, nos jogos. A estrutura da federação também não funcionava por aí além. E os jogadores eram de uma qualidade fantástica. É só enumerar: Bento, Humberto Coelho, Jordão, Nené e outros, muitos outros. Mas a mentalidade desses tempos era uma coisa... Nem vale a pena ir mais além.

E vale a pena ir mais além para tentar saber o que aconteceu na véspera da final da Taça UEFA-83?

[ri-se] É pá, você também... Pois, eu e o Eriksson é uma história antiga. Eu não joguei a final com o Anderlecht. Porquê? Nunca soube. Posso tentar adivinhar. Na meia-final, em Craiova (Roménia), fiz um teste físico e não estava em condições de jogar. O Eriksson colocou então o Strömberg e foi com ele até à final. Ou será que ele pensou que eu estivesse a fazer fita? Num treino, depois disso, eu e ele discutimos mas uma coisa normal, sem história e até própria da tensão da proximidade de uma final europeia. Destas três... Mas tem de ser o Eriksson a escolher porque eu não sei o que passou para não jogar a final de início [Alves não foi utilizado em Bruxelas e só entrou aos 62' na Luz].

Você e o Eriksson a discutirem num treino? Mas ele não era um paz de alma?

Sim, era. Eu é que era cá uma peste. Do pior. Fui melhorando com o tempo.

Quando levantou a Taça de Portugal em 1990, pelo Estrela da Amadora, já era mais calmo?

Ah, sim, bastante mais calmo. Mais até que o treinador adversário.

Imagino... Também comparar-se com o Paco Fortes é...

Bem sei, bem sei. Ele estava sempre eléctrico, aos pulos, com a cara vermelha de tanto barafustar, mas era competentíssimo. Sabe que cheguei a defrontá-lo como jogador, em Espanha? Eu no Salamanca, ele no Barcelona.

Ele é mais eléctrico do que o Luis Fernández [o histérico treinador de Israel, que começou a jogar futebol aos 19 anos, no PSG, com Alves]

São muito parecidos, de facto. O Luis ainda é um grande amigo meu. Telefona- -me com frequência a perguntar por jogadores portugueses. Demo-nos muito bem em Paris, porque ele era novo, queria aprender, pedia-me conselhos e era um bom ouvinte.

Fonte: I

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Futre considera David Luiz «melhor central do Mundo»



Paulo Futre passou esta quinta-feira pelo Estoril Open e não deixou de abordar vários temas da actualidade futebolística. Considera David Luiz, a par do espanhol Pique (Barcelona), o melhor defesa-central do Mundo. Se poderia ir para o At. Madrid? «Não tem dinheiro para isso. Só se o Simão entrasse na troca e ainda teriam de pagar», vincou.

Radicado em Madrid, onde continua sempre ligado ao Atlético local, Futre também diz que o Benfica «merece» conquistar o título, salvaguardando a ideia que o «Sp. Braga já é campeão» pela campanha levada a cabo no Campeonato. E diz mesmo que, caso o clube da Luz confirme a conquista, será o melhor para o País.

Palavras também sobre o Sporting, onde iniciou a carreira como jogador. «O melhor é pensar já no próximo ano», diz, notando um «esperar para ver» sobre aquele que será o novo treinador dos «leões»: Paulo Sérgio.

Fonate: a Bola

domingo, 2 de maio de 2010

Jorge Coroado. "Fui ameaçado de morte com pistola e com uma faca"

Há 15 anos, o árbitro expulsou Caniggia no Benfica-Sporting (1-2). As suas manhãs nunca mais foram as mesmas.



Preud'homme errou (e só um artista como Balakov é que o apanhou desprevenido). Marco Aurélio e João Vieira Pinto lesionaram-se no mesmo lance e saíram aos 21 minutos. O Benfica esgotou aí as substituições (que na altura eram duas) porque Artur Jorge já tirara Abel Xavier por opção (entrou Edilson), numa altura em que já havia 2-0 para o Sporting na Luz, com golos búlgaros - além do chapéu de Bala, um tiraço de Iordanov de fora da área. Mas que raio...?! Pois é, foi mesmo uma noite especial. Que não ficou célebre por isso. Nem pelo golo de Dimas. Nem pelo resultado (2-1 para o Sporting). O que ficou para a história desse dérbi foi a expulsão de Caniggia, por ordem do árbitro Jorge Coroado, que motivou trocas e baldrocas e até um jogo de repetição (2-0 para o Benfica, bis de Edilson, no Restelo, a 14 de Junho), promovido pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e anulado pela FIFA.

Foi há 15 anos. Pronto, pronto, já passou. Mas Jorge Coroado ainda não sabe se há-de rir ou chorar. "Porque tudo isto é kafkiano", justifica o árbitro desse jogo, que sofreu o inimaginável. Das mãos de desconhecidos, adeptos do Benfica. Mas antes disso vamos contextualizar: no dia 30 de Abril de 1995, o Sporting ganhava 2-1 ao Benfica, na Luz, no 10 x 10 (Veloso e Naybet foram expulsos aos 73' e 75', respectivamente), à passagem do 80.º minuto. Foi aí que houve uma falta duríssima de Sá Pinto sobre Tavares, perto da área do Sporting. Jorge Coroado assinala falta mas gera-se o enésimo sururu, com empurrões vários. Às tantas, Caniggia mete-se com Sá Pinto e é aí que Coroado intervém. "A ideia é dar um amarelo a cada, mas o Caniggia insulta-me. Chama-me 'filho da puta' e manda-me para a 'puta que te pariu'. Dei-lhe o amarelo. Depois ouvi isso e dei-lhe vermelho directo. O que as pessoas pensaram foi que eu me tinha enganado. Que eu julgava que ele já tinha amarelo e que portanto foi segundo amarelo. Nada disso. Foi amarelo, o primeiro dele naquele jogo, e depois o vermelho directo, porque não aceito insultos de ninguém. Nem em português nem em castelhano."

E depois? "Na cabina do árbitro, o sr. Gaspar Ramos [dirigente do Benfica] estava muito nervoso e descontrolado. Pedi-lhe que se retirasse. É verdade que aquela casa [Estádio da Luz] era dele, e ele até era delegado ao jogo, pelo que podia estar ali, mas não naquele estado, que aquele espaço era meu." A FPF reagiu e instaurou um processo ao árbitro, aos jogadores, ao jogo. A expulsão de Caniggia não ficou por ali. O avançado argentino garantiu nada ter dito e as imagens televisivas confirmavam-no, embora Caniggia aparecesse tapado pela cabeça de Isaías por uns segundos. O processo avançou e quem foi o relator? Sampaio Nora, do Conselho de Justiça da FPF, que esteve, anos depois, na lista de Vale e Azevedo para as presidenciais do Benfica. "Mal entrei na sala para depor, ele disse-me que estivesse tranquilo porque não gostava de mim." Entrada a pés juntos? "É como lhe digo: já se passaram tantos anos e ainda nem sei se hei-de rir se hei-de chorar. Foi um processo kafkiano."

E os jogadores, colaboraram? "Os do Benfica defenderam a sua dama. Do Sporting só houve um que me defendeu e disse o que tinha ouvido. Foi o Sá Pinto. Os outros encolheram-se. Como o Marco Aurélio, aquele central." E Jorge Coroado começa a falar com sotaque brasileiro. "Ele disse-me: 'Eu até ajudava você, Coroado, mas não sei o dia de amanhã, né?" Resumindo: "Eles tinham medo de dizer o quer que fosse porque isso hipotecava o futuro deles." Concluindo: "A FPF anulou esse jogo e promoveu um outro, de repetição, no Restelo, que a FIFA desvalorizou. Nas contas finais desse campeonato 1994-95, o jogo que conta é o meu. Que isso fique claro."

E Caniggia? "Olhe, só o vi mais uma vez, na minha despedida internacional. Para a pré-eliminatória da Liga dos Campeões, num jogo entre Rangers e Maribor, em Glasgow [1 de Agosto de 2001]. Falámos um pouco, ele disse-me que nunca quis criar problemas e eu disse-lhe que estivesse tranquilo. Nessa noite ele marcou dois golos [3-1]... e não o expulsei."

Ok, obrigado. Só mais uma pergunta: sofreu muito com esse episódio? "Nada de especial. Fui ameaçado de morte com uma pistola na cabeça e depois com uma faca, à porta do meu emprego [de bancário na Rua José Malhoa], de manhãzinha, antes da 8h30. Foram pequenos-almoços diferentes. Eram adeptos de cabeça perdida que queriam fazer justiça com as próprias mãos. O da pistola apontou-me a arma à cabeça mas não me assustou. O da faca falhou o alvo mas estragou-me o casaco. A sorte dele foi que conseguiu fugir. O azar foi que lhe fiquei com a faca."

Fonte: I

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Karadas: "O penálti contra o Estoril? É claro que o árbitro errou"

Pronto, quem fala verdade não merece castigo. O avançado norueguês que agora é defesa na Turquia assume um dos lances da época 2004/05



Karadas até pode não ficar na história como um grande avançado (aliás, por alguma razão agora é defesa no Kasimpasa) mas foi campeão no Benfica e esteve em campo naquele polémico Estoril-Benfica no Estádio do Algarve, há precisamente cinco anos. Já agora, o leitor lembra-se do que aconteceu no jogo da primeira volta?

Karadas. Tudo bem? Como é que me diz para lhe telefonar quando está a começar o Inter-Barça [meia-final da Liga dos Campeões]?

Pois é... mas deitei agora os meus filhos e tem de ser agora. Então e por aí? Como estão as coisas?

O Benfica prepara-se para ser campeão. O FC Porto teve um ano nada habitual, o Sporting está em quarto e a grande surpresa é o Braga.

Que aconteceu em Braga?

Tem vindo a fazer boas épocas, tem mantido bons jogadores e este ano estreou um treinador, Domingos, que fez um bom trabalho.

Ah, Domingos, sei quem é.

Mas fale-me de si. Está a jogar na Turquia? Nasceu na Noruega mas Karadas é um nome turco, certo?

É verdade, nasci e fui criado na Noruega mas recebi o nome do meu pai, que é turco. A vida é excelente em Istambul, mas é claro que não se compara a Lisboa. Vim para aqui a pensar jogar mas de caminho sempre posso descobrir a língua e alguns familiares. O azar [que por acaso é o primeiro nome de Karadas] é que estou lesionado e a época não me está a correr lá muito bem.

Se tem saudades de Lisboa deve ser daqueles que ainda seguem o Benfica.

Claro, sigo a Liga portuguesa e vi alguns jogos na Liga Europa - têm grande equipa, espero que sejam campeões. Vivi isso e foi fantástico, o estádio e as ruas cheias de gente! Para mim foi tudo novo, vinha de um país como a Noruega, coisas dessas só tinha visto pela televisão. Depois encontrei jogadores como Simão, Luisão e Nuno Gomes... O Benfica não ganhava o campeonato há 11 anos, meu Deus!

Lembra-se como foi parar ao Benfica?

Tinha de escolher o Benfica, apesar de ter outras propostas de clubes europeus. Houve muito empresário metido no meio mas foi o Trapattoni que me levou, percebi que me queria quando falei com ele e com José Veiga, em Lisboa. A época até começou bem mas depois ficou mais difícil jogar com frequência.

No início marcou logo dois ao Beira-Mar.

Pois foi. Fantástico! E ganhámos 3-2! [Petit fez o outro golo, Alcaraz e Beto marcaram para o outro lado].

Não é propriamente o mais tecnicista do mundo. Como foi integrar-se entre jogadores como Simão e Nuno Gomes?

Sabia que o futebol português era outro nível para mim mas esforcei-me e ajudaram-me muito. Na Noruega somos atletas de força, temos equipas de organização, em Portugal ganha-se liberdade, o papel não é fixo, cada um só depende da sua inspiração.

Não tinha sido defesa central antes de chegar ao Benfica?

Sim. E voltei a ser, agora sou outra vez! Depois do Benfica passei por Inglaterra [Portsmouth] e Alemanha [Kaiserslautern]. Foi aí que voltei à defesa. Às vezes, quando é preciso, lá vou à frente nos minutos finais do jogo para tentar um golo. Na Noruega sempre me disseram que deveria ter sido sempre central.

Se é especialista da defesa e do ataque, então diga lá como se arranca um daqueles penáltis como o que inventou contra o Estoril, no célebre mergulho no Estádio da Luz?

[Gargalhada; e outra...] Pois, eu sei que se fala muito desse penálti, basta ir à internet...

É o penálti da época. Conte lá.

Bom, foi penálti... Quer dizer, eu tinha dois defesas à minha frente, não me lembro de ter decidido nada, talvez me tenha dado um blackout e instintivamente tentei passar por eles e atirei- -me. Os árbitros por vezes erram e é claro que o árbitro desse jogo também errou [era Paulo Pereira, de Viana do Castelo, que em 2008 abandonou o apito desiludido com o sector]. Mas foi bom para nós, ganhámos [2-1, dois golos de Simão depois de João Paulo abrir o marcador].

Há precisamente cinco anos, a 24 de Abril, o Benfica voltou a jogar contra o Estoril, na célebre casa emprestada do Algarve. Entre tanta polémica, como foi aquela semana?

Lembro-me da confusão mas, sabe, como eu não percebia quase nada de português só mais tarde é que entendia a dimensão das coisas. Acabámos por vencer esse jogo, fizemos 2-1 [Luisão e Mantorras, depois de Paulo Sousa], foi um resultado importante naquela fase [30.a jornada] porque demos a volta ao resultado. Essas vitórias fazem as equipas crescer, ganham confiança.

Não falava português, como se fazia entender no balneário?

Tive aulas, depois comecei a perceber a linguagem do futebol, "direita", "esquerda"... e por aí fora. Também tinha alguma sorte porque havia muita gente que falava inglês. De resto, passava mais tempo com o Fyssas, ele era o meu colega de quarto nos estágios, mas tinha muitos amigos na equipa.

E como se entendia com Trap?

Para mim era simples, chegava ao treino e tentava fazer o melhor.

Houve um dia em que Trapattoni o deixou de fora de um jogo de treino e o mandou embora para o balneário. E o Karadas ficou no túnel a olhar como se não acreditasse no que se estava a passar... Que se passou?

Pois... ainda hoje não sei. Na Noruega só tinha de chegar ao treino e trabalhar, no Benfica era tudo mais evoluído e diferente, não imaginava que aquilo me podia acontecer, ficar à parte. Se calhar era normal. E pronto, lá fiquei no túnel a ver o treino dos outros, ainda hoje sem perceber bem porquê.

Nessa altura foi deixando de jogar com tanta frequência. Depois foi emprestado e quando chegou à Alemanha parou devido a uma doença estranha.

Como é que eu explico isto... É um problema que surge quando se treina muito, quando se treina até destruir o sistema imunitário. O meu corpo ficou descontrolado uns meses, tive de me reconstruir e isso demorou mais de meio ano. Foi duro, estava a jogar, a ser importante e depois tive de parar tanto tempo. O meu corpo fez off, estava cansado 24 horas por dia, não recuperava. Agora estou a 100%.

O erro foi seu ou dos seus treinadores?

Fui eu, fui eu... Fui ao médico, fiz exames na Alemanha e na Noruega, ao fim de algumas semanas percebi que fui eu, tinha acabado com a minha gasolina. Estava a ir sempre ao limite, dei tudo, queria estar em forma e abusei.

Que história é essa de ter o número 99 na camisola? Muito bem, Vítor Baía também o teve, mas o 9 geralmente é coisa de avançado que marca golos.

Ah, não é nada de especial. Foi o que me sugeriram e eu aceitei, quero é um número para jogar.

Quem está farto de marcar golos na Turquia [Kayserisport] é o Makukula. Conhece-o?

[Gargalhada] Claro, mas que época fantástica ele está a fazer [21 golos]! Mas que lhe aconteceu aí no Benfica?

Foi contratado a meio da temporada de 2007/08, não fez golos e se calhar a confiança foi-se abaixo. Depois acabou emprestado e agora é visto como uma boa opção para ir ao Campeonato do Mundo.

Acho que sim, convoquem-no! Ele é fortíssimo dentro da área, é muito difícil tirar-lhe a bola. Joguei contra ele há umas semanas e marcou um grande golo. Não o marquei homem-a-homem, nós jogamos com marcação à zona...

E o Karadas, já marcou o golo da sua vida?

Não sei, mas um dos meus melhores golos foi pelo Benfica, contra o Nacional [remate de 30 metros, sem hipótese para Hilário, que está hoje no Chelsea].

Lembro-me de outro de livre directo, pela selecção sub-21 norueguesa, contra Portugal.

Ah, sim! E quem estava nessa equipa?

Ronaldo, Quaresma, Makukula, Bruno Alves...

Essa gente toda? Tem de me mandar esse onze inicial! Lembro-me do Ronaldo, era um espanto...

Mas o Karadas era número 10 e marcava os livres porquê?

Na selecção sub-21 era número 10 e capitão, jogava à frente ou à defesa, consoante o treinador entendia. Marquei golos de livre mas esse foi o melhor.

E contra o Benfica, pelo Rosenborg, aquele de cabeça à entrada da área! Foi esse que lhe deu a transferência?

Não sei, se calhar foi, mas nunca mo disseram. Foi um golo à Karadas, mostrou a minha força. Sabe, aos 28 anos sinto essa força e estou apostado em ficar mais uns tempos pelos campeonatos no Sul da Europa. Quando estava na Alemanha voltei à Noruega [Brann] por causa da minha família, agora quero ficar por aqui, quem sabe regressar a Portugal - deixei aí bons contactos.

O Benfica já lhe pagou os prémios de jogo que lhe ficou a dever?

Sim, sim, tudo resolvido. O meu empresário falou com pessoas do clube e lá se entenderam.

Karadas, obrigado pela atenção.

OK, adeus.

Fonte: I

domingo, 11 de abril de 2010

«Izmailov aceitou proposta que foi retirada 4 dias depois»

PAULO BARBOSA EM ENTREVISTA RECORD/ANTENA 1

R - Quando fala de língua, não podemos deixar de falar do seu domínio da língua russa, que é, certamente, uma mais-valia para si. Este último processo que envolveu o Izmailov, acha que foi bem traduzido em todos os capítulos?
PB - Eu não falo só russo, falo mais línguas. Essa é a mais conhecida porque não há tanta gente que a fale e tenho representado jogadores eslavos. No que diz respeito ao Marat Izmailov, já o disse, é dos jogadores mais profissionais que conheci na minha vida, tão empenhado na paixão pelo futebol. É um jogador exemplar, o primeiro a chegar e o último a sair, que se sacrifica imenso pela equipa, como é conhecido. Aconteceu, por exemplo, antes do jogo com o FC Porto, em que ele esteve no hospital com uma virose, a soro, e passado horas estava a jogar 90 minutos. O que achei precipitado e deselegante foi quando, se calhar por falta de experiência, um director desportivo disse que o Marat não quis jogar com a equipa, mas não dizendo que ele disse "não quero jogar porque não estou em condições de jogar". Penso que isto é das maiores maldades que se pode fazer, ao criar uma ideia que o Izmailov não é o grande profissional que toda a gente conhece. Isto é um vírus que ele não merece.

R - Mas o que lançou mais confusão nas pessoas foi o facto de no dia do jogo com o At. Madrid ele ter viajado para Moscovo?
PB - Sim, mas sobre isso já vou dar uma explicação. Penso que ele ficou extremamente magoado quando teve de sair da Academia e teve conhecimento que disseram que ele não era profissional e não quis ajudar os colegas. Ele ficou tão magoado que fui ter a casa dele e fui ele próprio que o aconselhei a ir a casa. Na sexta-feira ela tinha, em princípio, o dia livre e tinha de ir ao consulado. Eu sugeri-lhe que fosse a casa, descansar a cabeça e ver os amigos, a família, e voltar. Falei com o cônsul, combinou-se que eu próprio iria ao consulado entregar as coisas e nessa noite ele partiu para casa. Ele não jogou para ir para casa, ele não jogou porque foi dispensado e não estava em condições.

R - Há declarações que se lhe são atribuídas em jornais russos, dizendo que o Izmailov não pediu desculpa na entrevista que deu ao jornal do clube. Como ficamos?
PB - Aquilo que ele disse foi que lamentava o facto de não ter comunicado ao Sporting o facto de ter ido ao país dele. Quanto ao resto ele não tinha razões para se desculpar. Desculpar de quê? De não estar lesionado e não poder jogar? Não, ele estava lesionado e ainda está limitado. Ele não pode pedir desculpa de uma coisa que não fez. Ele não pode pedir desculpa por não estar em condições de jogar.

R - Confirma que o Izmailov não fala Português e usa mais o inglês?
PB - Essa entrevista, que foi mais uma declaração de duas ou três frases, foi em inglês. Ele não queria dar a entrevista, porque achava que não era importante, mas foi um pedido do clube e ele limitou-se a fazer pequenas declarações em que, no inglês rudimentar nele, lamentava não ter comunicado essa ida a casa.

R - Não acha que ele devia dar uma conferência de imprensa a esclarecer todo o processo?
PB - Penso que sim, mas para isso era preciso que lhe dessem autorização, mas como se sabe os regulamentos dos clubes não permitem.

R - Depois de tudo o que se passou, ele tem condições para ficar no Sporting?
PB - Penso que sim. Vejamos, quem há menos de um mês recusou partir quando ia ganhar cinco vezes mais e decidir ficar e ajudar o Sporting num período complicado e fazer os jogos mais importantes, com o Everton... Houve uma altura em que as possibilidades de ele ir para o Lokomotiv eram de 100% com uma condição imposta por ele: fazer os jogos com o Everton e com o FC Porto. E no último minuto, ele decidiu ficar.

R - Mas, insiste-se, com um novo diretor desportivo e um novo treinador, há mesmo condições para ele ficar?
PB - Essa pergunta não sou eu que vou responder. Esta história podia ter sido resolvida internamente e ganhou uma dimensão desnecessária. O Marat é culpado num aspecto: muitas vezes ele joga em circunstâncias que ninguém espera que ele possa jogar. Mas ele recupera sempre, sacrifica-se sempre. Pela primeira vez ele não estava mesmo em condições. Ele fez um sacrifício para ficar em Portugal, gosta de Portugal e quer ficar no Sporting. Mas não sei o futuro, pois não depende só de nós. Mas houve um momento em que nos foi feita uma proposta de renovação que nós aceitamos e passados 4 ou 5 dias transmitiram-nos que já não havia condições para essa proposta ser levada à pratica porque o clube tinha perdido alguns objectivos. Fica a ideia que o objectivo era vender por vender.

R - Entre as duas situações houve mudanças na estrutura do Sporting?
PB - Sim, há pessoas novas. Não quero extrapolar, mas quando a proposta foi avançado ele aceitou e passados uns dias essa proposta já não estava de pé. Acho que é um momento importante para as pessoas perceberem que a vontade do Marat era ficar. Há uma questão que vamos ter a resposta no curto prazo e que é saber se às pessoas que estão à frente do clube lhes interessa ou não um jogador com o perfil do Marat.

R - Para com isso justificar a sua saída na próxima época?
PB - A conclusão é sua.

«A minha lealdade é para com os jogadores»

R - No relacionamento do empresário com os dirigentes dos clubes, verifica-se que estes mudam com muito mais frequência que os empresários. Você próprio ao longo de mais de 15 anos já encontrou diferentes dirigentes em vários clubes. O seu trabalho, no fundo, é manter abertos os canais com os clubes e não com os dirigentes dos clubes, porque os dirigentes passam e os clubes ficam?
PB - A minha relação é sempre com os jogadores, é a eles que me decido. Os clubes são instrumentos de trabalho e não há nenhuma razão para não ter as melhores relações com todos eles, desde que sejam com base no respeito e na lealdade. Mas é com os jogadores que devo toda a minha lealdade e dedicação. Por razões históricas, fiz muitas operações com o Sporting.


R - Quantos jogadores tem contratados?
PB - Terei, nesta altura, perto de 30 jogadores em Portugal. Tenho mais no estrangeiro, porque por razões conjunturais trabalho mais fora do que em Portugal. Mas voltando aos clubes. Sempre tive boas relações com os clubes. É público que tive uma boa relação, até de amizade, com o atual presidente do Benfica, mas como todas as coisas da vida, acabou. Com o FC Porto mantive e mantenho uma boa relação, como mantive sempre uma excelente relação com todos os presidentes do Sporting. Com casos complicados como o Cadete, com Santana Lopes, os casos do Carlos Martins, Beto, Pinilla, Varela, com Soares Franco. Não vejo porque não haja relações. O futuro não sei. Acho que os clubes devem trabalhar com toda a gente que tenha soluções concretas.

R - O que vai acontecer ao Marco Caneira?
PB - O Marco Caneira tem contrato com o Sporting. Fez um grande sacrifício para sair do Valencia, é um excelente profissional e a vontade dele é cumprir o contrato, pois ele não assinou contrato para jogar. Jogará quando lhe derem oportunidade.

R - O que tem vindo a público é que, se calhar por ser um jogador do Paulo Barbosa, pode ter os dias contados?
PB - Há uma coisa que posso confessar. Há jogadores a quem já disse "se isso vos ajudar no clube, deixem de trabalhar comigo". Acho que há sempre uma solução.

Fonte: Record

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Ian Rush. "Ainda tenho o programa de jogo dos 3-1 ao Benfica"



O galês não se esquece de uma noite. "Marquei três golos. E ao grande Bento"

Ian Rush está com pressa. E não é nenhuma brincadeira com o seu apelido. Estamos na rush hour (hora de ponta) e o galês, outrora goleador do Liverpool e agora comentador televisivo na ESPN, sem tempo para falar ao telefone. É um gentleman, fala pausadamente e lá concede a entrevista ao i. É um prazer ouvi-lo falar da carreira porque Ian Rush é daqueles fenómenos que nunca foram a um Europeu ou a um Mundial, como Alfredo Di Stéfano, George Best ou Ryan Giggs, que chegou a jogar na selecção do País de Gales com o avançado. Hãããã, desculpem, goleador. Aqui, neste caso, a rectificação impõe-se. Ao longo dos anos, Rush coleccionou golos para todos os gostos, ao ponto de ainda ser o melhor marcador de sempre do Liverpool (346), dos dérbis com o Everton (25), da Taça da Liga (48), das finais da Taça de Inglaterra (5) e da selecção galesa (28). É de mais? Sim, mas este detalhe é delicioso e é de partilhar: sempre que Rush marcava, o Liverpool não perdia. Foi assim em 145 jogos seguidos! Nesse currículo, Rush lembra-se de cinco golos ao Benfica, todos na Taça dos Campeões, em três jogos.

Ian, tudo bem?
Tudo. Estou com pressa [a tal rush hour] mas diz, diz à vontade.

Lembra-se das eliminatórias com o Benfica?
Ah sim, claro. Na primeira vez que joguei com vocês... Bem não sei se é do Benfica, mas vocês tinham uma grande equipa, com a experiência de Bento, os dribles do Chalana, a irreverência de Strömberg, a força do Carlos Manuel, o talento de Diamantino, a inteligência de Nené, a velocidade do José Luís. Todos estes jogadores eram constantemente falados pela imprensa com eventuais convites de Itália, então o El Dorado do futebol mundial, e isso impunha-nos respeito. Ainda por cima, nesses quartos-de-final da Taça dos Campeões 1983-84, eliminámos o Athletic Bilbao, lá em Espanha [0-0 em Anfield e 1-0 na Catedral], com um golo meu. Sabe como é que fomos despachados de Bilbau, à entrada do túnel de acesso aos balneários? Com garrafas, latas e almofadas. Foi um alívio quando percebi que vocês...

Do Benfica ou de Portugal?
[risos] De Portugal, sim. Que vocês, portugueses, eram mais educados. Imagine que, depois de vencermos 1-0 em casa [golo dele aos 66'], ganhámos 4-1 na Luz [0-1 por Whelan aos 9', 0-2 por Johnston aos 32', 1-2 por Nené aos 74', 1-3 por ele aos 78' e 1-4 por Whelan aos 86'] e os adeptos aplaudiram-nos. Fizemos, de facto, uma exibição de gala e a superioridade foi evidente

Com amizade e até à próxima?
Sim [risos], mais ou menos isso.

E não é que resultou, porque um ano depois lá estava o Liverpool de volta à Luz?
Pois, é verdade, mas o que me lembro dessa eliminatória é o jogo da primeira mão, em Anfield.

Porquê? Então marcou três golos. Isso para si devia ser uma chatice.
Muito obrigado. Assim até me vejo obrigado a adiar os meus compromissos para falar com um fã tão animado.

Mas é verdade, o Rush marcava golos a pontapé.
Sim, bem sei, mas dessa vez foram três ao Bento. Ao grande Bento.

Mas ele era pequeno.
Diz você. Para mim, ele ocupava aquela baliza toda. E quando ele saía da baliza e voava para afastar a bola de um cruzamento? Bem, aí era impressionante. Grande, grande. Em todos os sentidos.

Então marcou três golos ao Bento?
Sim. Aliás, ainda tenho guardado comigo esse programa de jogo, veja lá. Foi muito importante para mim. Porque foi o meu segundo a titular, depois de uma longa paragem por lesão. E porque marquei três golos ao Benfica, ao Bento, na Taça dos Campeões, e isso deu-me moral para encarar o resto da época e até da carreira. As lesões podem arrumar um tipo.

E você teve sorte?
Sim, indiscutivelmente. Ultrapassei esse problema e comecei a marcar.

Tanto, tanto, que até foi parar à Juventus, em 1987.
O tal El Dorado de que falava há pouco. Três anos antes, tive um convite do Nápoles, a proposta era tentadora e queria falar com eles mas o Liverpool nem me deu hipótese de negociar o que quer que seja. Só em 1987, com o Liverpool e todas as outras equipas inglesas desclassificadas das competições europeias devido a Heysel [39 mortos antes do Juventus-Liverpool, final da Taça dos Campeões, em Bruxelas], é que me deixaram ter a palavra. Na verdade, queria testar o meu futebol porque a selecção do País de Gales nunca mais ia a uma grande prova e queria estar entre os melhores jogadores do mundo. Mas fui parar a uma Juventus sem Platini. Um dia, eu e o Platini cruzámo-nos e ele disse-me que eu tive azar porque faríamos uma óptima dupla. Tenho a certeza que sim mas paciência. Lá, as coisas não resultaram muito bem, em termos colectivos, porque nem acredita o que melhorei como jogador. Lá, defendia, defendia e defendia. No Liverpool, só atacava. De maneira que aprendi todas as manhas que me foram úteis no regresso a Anfield, na época seguinte.

Pois, só uma época em Turim.
Mas fui recebido por cinco mil adeptos da Juventus no aeroporto, era acarinhado nas ruas e marquei 14 golos, apesar de uma era cinzenta, com troca de treinadores e tudo [saiu Rino Marchesi e entrou Dino Zoff].

É verdade que disse que não se deu bem em Itália porque era como se estivesse no estrangeiro.
Ehhhhh, não, nada disso. Mas não é a primeira pessoa que me faz essa pergunta. A verdade é que foi o Kenny [Dalglish] quem me meteu nessa situação embaraçosa e a piada espalhou-se como se fosse minha. Ele [Dalglish] é que disse isso.

Diz-se que você e ele formaram uma dupla diabólica mas não se davam bem fora de campo. É verdade?
Meia verdade. Sem nunca termos ensaiado, eu e ele entendíamo-nos às mil maravilhas, quase de olhos fechados, mas fora do campo simplesmente não falávamos assim muito. Tínhamos diferentes estilos de vida. Ele vivia em Southport e jogava golfe e eu vivia em North Wales e os meus melhores amigos eram Ronnie Whelan, Jan Molby e Terry McDermott. O curioso é que agora eu e o Kenny somos parceiros para a vida, muito melhor do que quando jogávamos juntos. Há uma outra coisa em relação ao Kenny: na minha última época no Liverpool [em 1995-96], já jogava com Peter Bearsdley, John Aldrigde e John Barnes e eram excelentes jogadores e companheiros mas nenhum foi como o Kenny. Aliás, foram precisos esses três para o substituírem.

Tem cá uma admiração pelo Dalglish...
Nos primeiros treinos com ele, pensava: "Mas porque é que estou aqui a correr que nem um maluco se este não vai conseguir dar-me a bola em condições, porque estou longe e tapado pelos defesas?" e logo a seguir eu dizia "shit" [merda]. Ele conseguia colocar a bola onde queria, fosse quem fosse que estivesse na área de acção. A sua visão era fabulosa e os seus passes simplesmente divinais. E como ele sabia que eu corria mais que os outros, era sempre a aviar.

Agora há alguém assim no Liverpool?
No tempo em que era treinador de avançados, quando fui contratado pelo Gérard [Houllier, treinador francês que levantou uma Taça UEFA e uma Supertaça europeia pelo Liverpool], o Owen era um fenómeno pela vontade de aprender e pela disponibilidade ilimitada de ultrapassar barreiras. Agora vejo o Torres como um avançado modelo. Ele é de classe mundial. Tem potencial e pode igualar os meus números se não se lesionar.

E há mais avançados assim de top?
Claro. Villa, outro espanhol. Drogba, da Costa do Marfim. Cristiano Ronaldo, de Portugal. Messi, da Argentina. Este é o melhor do mundo, faz-me lembrar o Maradona. Vê-lo a correr com a bola agarrada aos pés é uma perdição. Mas eu sou suspeito, como todos nós, acho. A escolher jogadores para uma equipa ideal, quase levava a equipa toda do Barcelona. Já viu bem aquilo? O Xavi. Meu Deus, o Xavi... Ele não erra um passe. Mesmo que queira.

Rush, não lhe tomo mais tempo. Vá lá à sua vida. Obrigado por tudo.

Até quinta?

Até quinta.

Fonte: I

segunda-feira, 5 de abril de 2010

«Vou fazer um grande Mundial» – Deco



Vive em Cobham, perto do centro de treinos e longe de Londres. Há dois anos no Chelsea, Deco não esconde que deseja voltar ao Brasil. Mas tem outra meta: o Mundial, onde quer explodir e ajudar Portugal a fazer boa figura.

Estamos muito perto do Campeonato do Mundo. O que acha que pode fazer Portugal na fase final da África do Sul?

Estamos de acordo se dissermos que não há obrigação de sermos campeões, embora ache que há selecções tão boas como a nossa, mas nenhuma melhor! Devemos, em primeiro lugar, tentar passar a primeira fase. Sermos eliminados seria, de facto, uma grande decepção. Acredito que vamos ser apurados e que tudo é possível. Num só jogo podemos perfeitamente ganhar a Espanha, à Argentina ou ao Brasil. Com os jogadores que temos, sinceramente, não vejo ninguém superior. Talvez a Espanha tenha mais soluções, mas não há outra selecção superior à nossa. Mas uma coisa deve ser levada em conta: não somos tão favoritos como Itália, Brasil, Argentina ou Alemanha. Mas se passarmos a primeira fase tudo pode acontecer.

Em termos pessoais, o que espera do Mundial?

Em primeiro lugar espero ser convocado! Estou a preparar-me da melhor forma e vou chegar bem ao Mundial. Vou estar a 100 por cento em termos físicos e mentalmente vou estar disponível, com a motivação nos índices máximos. Acredito, sinceramente, que vou fazer um grande Mundial.

Como se sentirá quando defrontar o Brasil? Já teve essa experiência, na estreia por Portugal...

Certamente que é um jogo especial, por ser brasileiro, por ter toda a minha vida ligada ao Brasil. Claro que é um jogo diferente de todos os outros, mas evidentemente que quero vencer. Quis jogar por Portugal e vou defender a camisola até ao fim. Quando tomei essa decisão sabia que estes jogos poderiam acontecer. E, se marcar, nenhum brasileiro poderá ver isso como uma traição à nação onde nasci.

Disse que é brasileiro, uma frase que causou alguma polémica em Portugal. Quer comentar?

Jogar por Portugal era o que mais queria e não me arrependo nem me arrependerei dessa decisão. Quando vou ao Brasil digo o mesmo aos meus amigos e familiares. Pelos vistos houve gente que ficou chocada por eu ter dito que sou brasileiro, mas não sou hipócrita para dizer que sou português, porque não nasci cá. São Bernardo do Campo não é Vila Nova de Gaia nem pertence ao Porto. Estive no Brasil até aos 17 anos, mas depois vim para Portugal e aprendi a amar o País. Tenho filhos que nasceram em Portugal, fiz amigos em Portugal, alguns deles importantíssimos na minha vida, e o que mais me importa é sentir-me bem comigo mesmo, perante a decisão que tomei. As pessoas podem ter certeza de uma coisa: estou na Selecção de corpo e alma e tenho um intenso sentido de gratidão a Portugal, se calhar até mesmo mais do que alguns portugueses...

Há quem diga que quis jogar por Portugal porque não conseguiria chegar à selecção do Brasil. Como reage quando ouve essas opiniões?

Com a minha carreira a coisa mais normal seria ter jogado pelo Brasil. Há jogadores que não fizeram metade que já vestiram aquela camisola. Jogar na selecção brasileira seria a coisa mais fácil e natural para quem ganhou tudo no FC Porto, foi titular indiscutível no Barcelona durante quatro anos e joga num dos principais clubes do Mundo. A minha carreira fala por mim. Aliás, quando me decidi por Portugal, em 2003, o Brasil não tinha jogadores com as minhas características.

Sente-se triste por isso.

É uma estupidez! Sinto que estou no mesmo barco da Naide Gomes e do Obikwelu: quando ganhamos somos portugueses, quando perdemos somos estrangeiros! Quando ganhei troféus, falavam de mim como o internacional português, mas quando havia notícias menos agradáveis, como derrotas ou lesões, dizia-se e escrevia-se jogador brasileiro. Só deixo um exemplo: o maior ídolo do futebol no País não nasceu em Portugal. As pessoas devem pensar duas vezes antes de falarem.

Fonte: a Bola

sábado, 27 de março de 2010

"Benfica é favorito, Braga arriscará mais que o costume"

Entrevista com Ricardo Rocha



Em Inglaterra, Ricardo Rocha, agora no Portsmouth, vai assistir ao jogo do título que opõe os dois clubes que representou na Liga. O central assume que tem saudades da Luz, mas também confessa que a equipa de Jesus é melhor que aquela que integrou e que se sagrou campeã.

Na quarta-feira, no jogo entre o Portsmouth e o Chelsea, sofreu um traumatismo grave. Saiu do relvado em maca, com máscara de oxigénio. Está a recuperar bem?

Sim, na altura achei mesmo que tinha partido um osso, fiz um enorme hematoma na face, a minha saída de campo foi realmente um pouco exagerada. Maca, máscara, mas , em situações destas, mais vale prevenir do que remediar. Por pouco não desmaiei. Fui ao hospital fazer exames e não tenho nada partido.

Já viu o lance? Considera que existiu maldade do colega?

Já vi o lance e sim, acho que a cotovelada poderia ter sido evitada. No momento foi um sensação terrível. Achei mesmo que tinha partido qualquer coisa.

O jogo deste fim-de-semana entre o Benfica e o Sp. Braga vai ser o jogo do título?

Vai ser um jogo decisivo. O Sp. Braga chega à Luz com três pontos de atraso e uma derrota deixa a equipa praticamente fora do título. Julgo também que será um grande jogo. Vão defrontar-se duas excelentes equipas, qualquer delas capaz de proporcionar um bom jogo de futebol. O Benfica, pelo factor casa, é naturalmente o favorito.

O Sp. Braga não tem os recursos do Benfica. Como é que acha que vai jogar na Luz?

O Sp. Braga não pode perder e o empate também não lhe servirá. Nesse sentido, é provável que vá à Luz correr mais riscos do que habitualmente. Não esquecendo, obviamente, que ainda há um mês saiu do Dragão com cinco golos sofridos. Quanto ao Benfica, penso que não alterará nada. Vai fazer um jogo normal. Tem uma equipa muito forte e um treinador capaz de pôr aqueles jogadores a brilhar.

Conhece bem os adeptos do Braga, que o vaiaram várias vezes a partir do momento em que se transferiu para o Benfica. Vai ser um jogo de alto risco fora e dentro de campo?

Espero que não. Os adeptos do Sp. Braga são muito aguerridos, gente do Norte é assim , mas não são violentos. É verdade que fui muitas vezes vaiado, tantas que até me cansei e acabei por ser mauzinho, festejando com demasiada efusão um golo que lhes marquei. Mas, repito, acho que vai ser um jogo pacífico.

O Benfica de Jesus pode ser campeão com uma grande equipa, ao contrário da de Trapattoni, que foi campeão mais por demérito dos adversários?

Uma equipa ganha sempre por demérito do adversário. Se alguém ganha, é porque alguém falha. Num ponto concordo, esta equipa é muito melhor do que a de 2005, mas isso só releva o mérito da nossa. Foi muito difícil conquistar o título em 2005. Com uma equipa como a de agora, é mais fácil.

Foi jogador do Sp. Braga de 1999 a 2002. Já nessa altura sentiu que o clube estava a preparar a aproximação aos três grandes?

O Sp. Braga cresceu muito ao longo dos últimos anos. E notava-se que era um clube que queria mais, com vontade de se impor, na região e no País. Criou infra-estruturas e foi construindo equipas que têm vindo a permitir-lhe acercar-se cada vez com mais frequência dos primeiros lugares. Este ano está a fazer uma campanha fantástica, fruto do trabalho do Domingos e do apoio da direcção.

Saiu do Benfica desejoso de conhecer novos campeonatos. Ao fim de três anos, a experiência no estrangeiro valeu a pena?

Vale sempre a pena. Na altura, aceitar o convite do Tottenham pareceu-me a melhor decisão. Nem sempre corre tudo bem, mas a vida é assim.

Passou oito meses a jogar com regularidade, mas, depois, uma lesão e a mudança de treinador colocaram-no nas reservas. Acabaria por sair no final do contrato. Foram os piores momentos da sua carreira?

Sim, vivi nessa altura dos dois lados do futebol. A primeira fase foi muito boa, fui uma opção regular do treinador, com a lesão parei três meses, entretanto o treinador mudou e quando regressei não foi fácil. Mas nessa fase recebi propostas de vários clubes, uma delas de um bom clube inglês, propostas que o Tottenham nunca aceitou. Foi por isso com espanto que me vi relegado para a equipa de reservas.

As propostas eram só de clubes ingleses?

Também da França e da Espanha. Mas o Tottenham pedia um preço exagerado e no fim mandou-me para as reservas. Quem pensa que o jogador tem poder está completamente enganado. Em situações destas estamos nas mãos do clube.

Foi depois para o Standard de Liège, um clube onde jogaram vários portugueses - Sá Pinto, Jorge Costa, Sérgio Conceição. Gostou dessa experiência?

Fui para o Standard como último recurso. Tinham-me garantido que haveria de me chegar uma proposta de um clube espanhol e pediram-me para esperar. O certo é que os dias foram passando e essa proposta não aparecia. Já praticamente em cima do fecho da inscrições decidi não esperar mais. Apareceu a oportunidade de ir para a Bélgica, para um clube que ia jogar a Liga dos Campeões, com um treinador que já tinha estado em Portugal, e aceitei.

O que está a dizer é que foi enganado por um empresário?

Sim, mas sem nomes.

Na altura não colocou, por um momento, a hipótese de regressar a Portugal?

Não tive convites de clubes portugueses.

Não gostaria de regressar?

Não sei. Sinto-me bem cá fora. Sempre gostei de estar no estrangeiro. No entanto, não quero dizer que um regresso seja impossível.

Esteve na Bélgica apenas cinco meses...

É um clube que dá boas condições, com presença na Liga dos Campeões, mas não estava a gostar. O Standard de Liège é um clube vendedor, preocupa-se em contratar jovens para formar e vender. E eu, como um dos mais velhos da equipa, não era uma prioridade.

Regressou em Janeiro à Liga inglesa ao assinar pelo Portsmouth. Com que expectativas?

Jogar. É a minha única expectativa, uma vez que na minha primeira passagem por Inglaterra estive quase um ano sem o fazer. Sei que o clube tem dificuldades financeiras, maiores até do que aquelas que eu conhecia quando assinei, mas estou num campeonato fantástico. Do ponto de vista financeiro não posso queixar-me.

Os graves problemas financeiros do clube reflectem-se no dia-a-dia da equipa?

Em Inglaterra não há hipótese de um jogador ficar sem receber salário. Desse ponto de vista, estamos protegidos. Mas custa imenso saber que há funcionários com problemas e que alguns foram já despedidos, sendo que não foram eles os causadores da situação.

Tem contrato com o Portsmouth até final da época. E depois?

Tenho já quem esteja a tentar resolver esse assunto. Devo dizer que gostava de continuar no Portsmouth e em Inglaterra. Os adeptos são fantásticos e as pessoas que trabalham no clube extraordinárias.

Nunca mais colocou a hipótese de um regresso ao Benfica?

O Benfica deixou-me imensas saudades e não posso dizer nunca mais. Em Portugal cumpri o meu sonho de miúdo, que era jogar no Benfica. São daquelas coisas que acontecem uma vez - a lesão de um colega, o castigo do outro levaram Manuel Cajuda a apostar em mim e a colocar- -me na equipa principal do Sp. Braga. No final da primeira época, soube que o Benfica estava interessado em mim, mas nem acreditei. Meio ano depois fui para o Benfica. Curiosamente, antes disso estive mesmo para ir para o Boavista. A transferência não se concretizou porque os dirigentes dos dois clubes não chegaram a acordo.

O Benfica na altura vivia desportivamente um tempo difícil. Acreditou que seria campeão nacional pelo Benfica?

Soube sempre que não sairia do Benfica sem ser campeão. Passámos momentos complicados, mas conseguimos, com Trapattoni, o título. Foi uma altura inesquecível, tanto mais que foi conquistado contra tudo e todos.

Foi para Inglaterra com o estatuto de um central muito promissor. Acha que alguma coisa correu mal na sua carreira?

Aquele ano sem jogar no Tottenham foi, muito provavelmente, o que correu mal.

Ter deixado de ser representado pelo empresário Jorge Mendes pode ter condicionado a sua carreira?

Penso que não. Sou amigo do Jorge, nunca tive qualquer problema com ele. Aliás, o Jorge nunca foi essencial no que diz respeito a arranjar-me clube. Teve, sim, um papel importante na renegociação do meu contrato com o Benfica. Passei a ser um dos mais bem pagos do plantel.

Nunca se arrependeu de ter deixado o Benfica?

Eu nunca quis deixar o Benfica por deixar. Apenas entendi que, ao fim de quatro anos e meio de clube, não devia desperdiçar uma proposta de uma equipa inglesa até porque é uma liga que me fascina.

Na altura disse que os adeptos não perceberam bem a sua saída - terão ficado a achar que saiu apenas por dinheiro. Já fez as pazes com os adeptos benfiquistas?

Ainda hoje sou muito bem tratado pelos adeptos do Benfica, nomeadamente quando vou a Portugal de férias. A bordam-me na rua e mesmo os portugueses com quem me cruzo em Inglaterra tratam-me com reconhecimento. Os adeptos sabem que o dinheiro nunca esteve em causa. Durante os dois primeiros anos, fui dos mais mal pagos e nunca ouviram um queixume; depois, passei a ter um excelente contrato mas mantive sempre o mesmo esforço. Os adeptos sabem que eu nunca sairia prejudicando o clube financeiramente.

Jogou recentemente contra o Liverpool, adversário do Benfica nos quartos-de-final da Liga Europa. Pelo que conhece, julga que é uma equipa ao alcance do Benfica?

São duas equipas muito boas e o favoritismo reparte-se. O Benfica está muito forte na Liga Europa e na Liga portuguesa. O Liverpool tem mostrado alguma inconstância no campeonato onde ainda não garantiu o quarto lugar e a possibilidade de chegar à Liga dos Campeões.

Nesse jogo, as principais preocupações do Benfica serão...

O Benfica saberá muito bem como preparar o jogo com o Liverpool, mas penso que Steven Gerrard e Fernando Torres merecem uma atenção especial.

Diz de si: "Sou muito negativo. Acho sempre que os outros são melhores do que eu e isso obriga-me a trabalhar muito." Continua a pensar assim?

Sempre. É a minha maneira de ser e de encarar o futebol. Trabalho sempre para atingir o perfeccionismo.

Em tempos considerou Liedson um dos avançados que mais trabalho lhe deu. Gosta de o ver na selecção?

Foi muito importante na qualificação, marcou um golo. É um grande jogador.

Quim foi afastado da selecção depois do jogo do Brasil. Como é que explica esse afastamento de um grande amigo seu?

Gostava de dizer que aquilo que fizeram ao Quim é uma vergonha. A comunicação social enterrou o Quim fazendo manchetes e manchetes onde lhe atribuíram todas as culpas pela derrota frente ao Brasil. E de muitas das derrotas do Benfica.

Quem o afastou foi o seleccionador...

Sobre isso poderá falar o seleccionador. O que eu sei é que no futebol quando se ganha ganham todos e quando se perde também devem perder todos.

Como é que ele passou por essa fase má?

Foram momentos muitos maus mas o Quim é muito forte e este ano deu a resposta.

Merecia ser convocado para o Mundial?

Na minha opinião, merecia ser convocado.

Qual é a sua dupla de centrais titular no Mundial 2010 na África do Sul?

Sobre isso posso apenas dizer que Portugal tem grandes centrais. Bruno Alves, Pepe, Ricardo Carvalho...

Bruno Alves está a jogar com demasiada agressividade?

Ultimamente tem-se atacado em demasia o Bruno Alves com o argumento da agressividade. O Bruno Alves é o capitão do FC Porto, é ele quem dá a cara pela equipa e, portanto, numa época menos boa, carrega em si o peso da insatisfação de todos os colegas. E num ou noutro jogo isso nota-se mais.

No que diz respeito a centrais, considera que a renovação está assegurada?

Penso que sim. Daniel Carriço, Nuno André Coelho e Miguel Vítor ficarão bem nesses lugares.

Fonte: Diário de Notícias

quinta-feira, 25 de março de 2010

«Antes dos jogos recebia injecções para as dores»



Explosivo. Izmailov concedeu uma entrevista ao jornal russo Sport Express, à qual A BOLA teve acesso, e esclareceu a sua posição sobre a catadupa de situações que veio a público desde quinta-feira.

Procurando colocar pontos nos iis em relação a todas as dúvidas que a sua atitude e posteriores esclarecimentos de elementos do Sporting deixaram no ar, o médio russo revela aquilo que entende ser «toda a verdade» sobre o caso. Desde o porquê de não ter jogado frente ao Atl. Madrid às faltas a um treino e a duas sessões de tratamento na Academia. Ao mesmo tempo, defende-se das críticas tecidas por Costinha sobre a sua conduta profissional, acusando, até, o director leonino de não ter tido sensibilidade para resolver o assunto dentro de portas, tratando-o, ao invés, na praça pública.

O jogador deixa ainda crítica implícita à estrutura do futebol leonino, que acusa de ter esquecido todos os sacrifícios anteriores em prol da equipa. E os sacrifícios mais recentes, conclui-se pelas suas palavras, podem reconduzi-lo à mesa de operações.

O russo afirma ainda com toda a clareza que jogou várias vezes sob efeito de analgésicos para acalmar as dores no joelho direito. Mas entendeu dizer basta após o jogo com o V. Guimarães.

JOELHO VOLTOU A DOER

Na entrevista hoje publicada no diário moscovita, Izmailov desvaloriza toda a situação, justificando porque veio a público falar dela. «O que aconteceu não foi nada de especial, acontece em qualquer clube, foi situação profissional. A diferença é que foi tornada pública quando devia ter sido tratada dentro da equipa. Não gosto de estar a falar de assuntos internos, faço-o porque se referem a mim», explica, para de seguida historiar os problemas que o levaram, como se conclui pelo seu relato, a recusar jogar frente ao Atl. Madrid.

«O ano passado [21 de Julho de 2009] fui operado ao joelho e depois o clube tentou acelerar o processo de reabilitação para voltar a jogar. Quis jogar muito e os treinadores também contavam comigo, por isso foi necessário acelerar o processo. Quando voltei a jogar, joguei praticamente em todos os jogos e o joelho começou a doer», conta o russo, que foi operado pelo médico Ludwig Seebauer, em Munique.

OPERAÇÃO É HIPÓTESE

Izmailov voltou à Alemanha com a recuperação já em curso, ainda em Novembro de 2009, para consultar o mesmo médico, que acompanhou todo o processo, com a anuência e conhecimento do departamento médico leonino, com o qual estava articulado, e sempre acompanhado por Gomes Pereira. Nessa altura, como de resto já admitiu o médico dos leões, o processo de recuperação não estava a ser totalmente bem sucedido.

Ludwig Seebauer continuou a acompanhar o russo. E, garante Izmailov, o médico alemão foi explícito sobre a sua situação. «Disse que se tivesse dores tinha de fazer um intervalo, parar um pouco. E se as dores não parassem até final da época teria de ser operado de novo.»

QUERER... E NÃO PODER

Izmailov, depois de sete meses afastado, faz o regresso oficial aos relvados a 3 de Dezembro de 2009, com o Heerenveen. Começaria então o processo de reintegração progressiva em competição. Volvidos estes meses, Izmailov confessa: «Antes de todos os jogos desta época recebia injecções analgésicas para acalmar as dores.» Mas, a partir de determinado ponto, Izmailov sentiu que as injecções já não surtiam o efeito desejado. «Chegou a uma altura que já não ajudavam, as dores eram insuportáveis», revela.

Depois da vitória sobre o V. Guimarães, as dores subsistiam. O russo decidiu que era hora de parar de sofrer dentro de campo. «Após o jogo com o V. Guimarães não participei no treino de recuperação antes do jogo com o Atl. Madrid. Os médicos pediram-me para participar no treino, mas só fiz o aquecimento e depois saí porque sentia dores fortes», contou, prosseguindo: «Os médicos esperavam que pudesse participar no jogo com o Atl. Madrid, também queria muito jogar, são jogos raros numa carreira, foi por jogos destes que quis deixar o futebol russo.»

Mas querer não é poder. E Izmailov garante que não tinha condições para ir para dentro de campo. «Na manhã do jogo fiz um teste ao joelho e senti que nada melhorou. Disse-o ao treinador e aos médicos. Depois fui chamado por Costinha, que disse que eu devia jogar. Respondi que quando um jogador participa num jogo sem poder ajudar a cem por cento os colegas isso é mau para a equipa», assegura.

Costinha não foi sensível à posição do russo: «Disse-me para recolher as minhas coisas, deixar a Academia e ir para casa.» Assume que jogou várias vezes sob efeito de analgésicos Admite que pode voltar à mesa de operações A BOLA revela todas as justificações do russo para a polémica dos últimos dias.

Fonte: a Bola

terça-feira, 23 de março de 2010

Sokota. "Não comprei o Ferrari com dinheiro do FC Porto"



Um dia o croata do Benfica foi dispensado para a equipa B. Aparecia nos treinos de Ferrari. Devagarinho, no fim da época foi para o Dragão

Sokota sempre gostou de carros e de velocidade. Quando veio para Portugal trouxe da Croácia um Audi A3 todo artilhado, de escape rouco e vidros escuros, que o identificava à distância. Quando estava de saída do Benfica comprou um Ferrari em que ia para os treinos da equipa B - onde corria ao lado dos miúdos dos FIAT Punto ou que nem carta tinham - depois de Luís Filipe Vieira o afastar do plantel por não aceitar a proposta de renovação do contrato. "O Ferrari? Isso eram coisas minhas...", diz, meio-envergonhado. Agora, entre os jogos com o Lokeren, na Bélgica, anda de kart com o filho de sete anos.

Boa tarde, Sokota.
Boa tarde. Quem fala?

Filipe Santos, do jornal i. Tínhamos combinado a entrevista há duas semanas. Entretanto você teve o telemóvel sempre desligado...
Pois foi, perdi-o nas corridas. Fui aos karts e não sei o que lhe aconteceu.

Agora dedica-se às corridas?
Não é nada sério, vou para me divertir. O meu filho é que está a começar.

E como é que corre a vida na Bélgica?
Mais ou menos. Agora estou a jogar e a marcar golos, fiz dois nas últimas semanas. Perdemos o último jogo 4-1...

Mais ou menos?
Estava habituado a jogar para ganhar, mas agora estou num clube que luta para não descer de divisão. Estamos em penúltimo. Tenho 17 títulos na carreira e agora jogo para não descer...

Como é que foi parar à Bélgica?
Estava no Dínamo de Zagreb, tinha assinado um bom contrato, mas entretanto o presidente achou que não me devia pagar e começou a tentar pôr-me fora do clube. Lá chegámos a um acordo de rescisão. Depois já não foi fácil encontrar uma equipa de topo. Isto não é como em Portugal, mas cá estamos.

É verdade que recebeu ameaças de morte?
Quando ainda estava na Croácia, sim. Um dia a polícia chamou-me. Não sei como souberam de umas mensagens estranhas que alguém andava a enviar--me. Também nunca soube quem foi, mas é fácil desconfiar. Percebi que aquilo era tudo para me obrigar a sair do clube. Pensava que ia acabar a carreira por lá.

Em Portugal nunca lhe aconteceu nada disso. Não tem saudades?
Muitas! E a minha mulher ainda mais! Está sempre a dizer-me que temos de voltar para Lisboa, mas agora é complicado estar sempre a mudar por causa da escola do meu filho mais velho. Mas os amigos, o Sol, a comida...

Preferia Lisboa ao Porto?
Bem, no Benfica joguei mais, tenho mais memórias boas de Lisboa e do Benfica. No FC Porto estive sempre lesionado.

Mesmo assim não saiu bem do Benfica.
Eu queria renovar o contrato. Não cheguei a acordo com o presidente [Luís Filipe Vieira], não me senti valorizado com o que ele me estava a oferecer. Mas ir treinar para a equipa B? Foi um choque para mim, não é forma de tratar as pessoas. Ainda fiz a pré-temporada com Trapattoni, mas depois fui afastado. Trapattoni não me disse nada, nem podia. Cumpriu instruções. E eu lá fui...

E foi de Ferrari.
[risos] O Ferrari? Isso eram coisas minhas...

Já tinha assinado pelo FC Porto nessa altura? O que se dizia era que tinha comprado o Ferrari com dinheiro do novo contrato com o FC Porto.
Não. Aliás, por lei, nessa altura não podia assinar porque ainda estava ligado ao Benfica. Essa história de que comprei o Ferrari com dinheiro do FC Porto é mentira. Mais: esperei até ao fim da época por um acordo com o Benfica. Antes de aparecer a proposta do FC Porto ainda tive duas ofertas de Inglaterra.

No primeiro jogo no Benfica marcou um golo [Salgueiros], mas sete jornadas depois estava lesionado. As lesões hipotecaram-lhe a carreira?
Nunca vou esquecer o dia em que cheguei. Fiquei estupefacto com tudo. Os problemas começaram logo depois. Ninguém sabia o que se passava, nem como ajudar. A lesão foi evoluindo pouco a pouco, fui infiltrado muitas vezes para não ter dores... Houve alturas em que deveria ter parado, mas era preciso jogar... Tinha uma inflamação e o tendão de Aquiles separou-se do osso pela metade. Depois aconteceu o mesmo no FC Porto. Tinha um problema ósseo que hoje, com recurso ao laser, se resolve em dois meses.

A sua melhor época no Benfica foi com Camacho: 11 golos.
Mais quatro na Taça!

Quem foi o seu melhor treinador?
O Camacho! Ganhámos uma Taça de Portugal contra o FC Porto do José Mourinho. A equipa tinha um estilo de jogo que me favorecia muito. A bola seguia, o defesa fazia jogo directo para mim e eu colocava num extremo. Futebol simples e com atitude.

Assumia o trabalho duro e depois dizia que o Nuno Gomes fazia os "remates gay". Ele nunca levou a mal?
[Gargalhada] O Nuno! Grande jogador, sempre gostei muito dele, é bom ter ao lado alguém que sabe jogar futebol e ele sabe tudo, tabelas, movimentações... Nunca levou nada a mal, aquilo era uma brincadeira de amigos. É uma boa pessoa e por isso ganhou muito na vida.

Foi treinado duas vezes por Jesualdo Ferreira e ainda não falou dele.
Mas devo muito ao professor! Foi ele que me levou para o Benfica depois de assistir a um jogo meu pela selecção sub-21 da Croácia. O Jesualdo é muito culto no futebol, Camacho é mais um treinador de garra, por tudo aquilo que viveu no Real Madrid. Mas o FC Porto está mesmo fora da luta pelo título? Meu Deus! Não é costume.

É uma evidência, e o futuro de Jesualdo Ferreira parece estar em causa.
Sofreram aquela goleada na Liga dos Campeões! Também vi o Sporting-FC Porto, meu Deus...

Você que viu Pinto da Costa reconstruir uma equipa, em 2005/06, com Co Adriaanse e depois com Jesualdo Ferreira, diga lá como vai ser agora.
Ah... o FC Porto é um clube muito diferente de todos os outros que conheci. A palavra-chave é "organização". No Benfica é tudo mais aberto, toda a gente fala e aparece. No FC Porto nunca se sabe de nada fora do clube. Quando chega um jogador, percebe logo qual é a sintonia. Fui para o FC Porto porque sabia que lá era mais provável ganhar. Depois confirmei que há uma ideia de trabalho, a tal sintonia.

Qualquer um pode ganhar no FC Porto?
Jesualdo Ferreira foi campeão três vezes no FC Porto e nunca o conseguiu no Benfica. Para se entrar no sistema do FC Porto só é preciso ter qualidade e querer trabalhar. E isso não vai acabar de um momento para o outro.

Quem o impressionou no FC Porto?
O melhor jogador? O melhor jogador que encontrei em Portugal estava no Benfica e chamava-se Simão. No FC Porto impressionaram-me menos os craques. Tinha mais admiração por figuras como Vítor Baía e Jorge Costa - tinham aquela vontade de ganhar e eram pessoas com carácter.

Jorge Costa, "o bicho".
O Jorge Costa é um brincalhão que gosta de estar bem com as pessoas. O "bicho" era o jogador que estava em campo.

Agora FC Porto e Benfica jogam a final da Taça da Liga. Têm passado a época às cabeçadas fora do relvado mas dentro do campo quem vai ser melhor?
Finais nunca se sabe! O Benfica do Camacho não ganhou a final da Taça ao FC Porto do Mourinho? Nestas alturas, estar por cima não quer dizer nada.

No seu tempo também havia confusões nos túneis como tem havido por cá?
Isso é tudo normal. Nos clubes aproveitam todas as situações para tentar ganhar qualquer tipo de vantagem. É assim em todo lado e os adeptos entusiasmam-se.
No meu tempo nunca aconteceu nada de especial. À parte isso, lembro-me de uma vez ir jogar ao Porto e partirem o autocarro todo à pedrada. Mas isso acontece e olhe que na Croácia é dez vezes pior, o mais normal é os adeptos entrarem num parque de estacionamento no dia de treino e partirem os carros todos aos jogadores.

Tem 32 anos. Vai jogar até quando?
Enquanto puder andar. Já perdi muito tempo com lesões. Agora estou de novo a sentir-me bem, a marcar golos, quero aproveitar tudo.

E um regresso a Portugal?
Se alguém me chamasse, ia já amanhã, mesmo para um clube mais pequeno - desde que tivesse um projecto bom para lutar por alguma coisa. É que isto de estar a lutar para não descer... não estou nada habituado.

Fonte: I