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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Futebol de Gabinete

Operação coração de leão

Os últimos 2 meses foram atribulados para o futebol português, com os principais dirigentes e técnicos envolvidos numa escaramuça lamentável, imprópria de um país desenvolvido e própria de uma nação completamente à deriva ou como diria um amigo meu, referindo-se a um jogador do Sporting: um barquinho de borracha sem remos no meio do oceano.

No meio da confusão e distracção com todo o aparachik da selecção, aproveitou o Sporting para realizar mais uma reestruturação financeira, desta feita, a segunda operação nos últimos 6 anos em função da necessidade de cobrir os prejuízos apurados neste período e permitir prorrogar o vencimento das dívidas à banca. A operação pretende desvalorizar o valor nominal das acções de 2 € para 1 € para, posteriormente, realizar um aumento de capital em 18 milhões de euros através da emissão de títulos convertíveis em acções. Ao contrário do que vem sendo anunciado em alguma comunicação social, a operação não se destina nem permitirá reforçar o plantel de futebol, no que respeita à reestruturação só por si, na medida em que, segundo apurei, o clube irá participar no aumento de capital através de novo financiamento bancário e os recursos que obterá serão utilizados para abater dívida bancária no mesmo montante. Como sucede em todas as operações de reestruturação financeira, o banco exige colaterais para a prorrogação do capital em dívida. Tais garantias poderão passar pelo reforço de hipotecas de imóveis ou aumento da taxa de juro. Isto para dizer que, apesar do Sporting ficar mais folgado anualmente em prestações, no futuro pagará muito mais juro e dívida por um maior número de anos.

A meu ver, esta operação começa a indiciar muitas dificuldades em obter aumentos de capital por parte da Sporting, SAD, tendo a administração que recorrer à desvalorização do valor de cada acção. Quem fica a perder são os antigos accionistas que têm 2 euros na mão e passarão a ter apenas 1 euro, para o mesmo número de títulos. Basicamente, na minha opinião, trata-se de um incentivo para tentar atrair mais investidores, pois baixando o valor das acções elas ficam mais baratas para quem quiser subscrever. É a única explicação que encontro para se proceder a uma operação deste tipo.

O ano de 2009 foi o pior dos últimos 8 anos do Sporting, pelo menos financeiramente, mesmo atendendo a que a receita neste ano foi muito superior à de 2002, por exemplo. Neste sentido e com o mais recente acréscimo de competitividade dos clubes rivais, os anos de 2013 e 2014 adivinham-se como decisivos para o Sporting e, caso as receitas não subam, ou o clube diminui o orçamento para contratações ou, caso contrário, poderá vir a deparar-se com uma situação de incumprimento. Desconheço se tem ou não mais património para hipotecar, mas se não tiver provavelmente ficará completamente dependente da venda de jogadores e outras reduções de custos. Mas depois coloca-se o problema: vender quem e por quanto, já que o justo valor da maior parte dos jogadores está abaixo do valor de aquisição ou das cláusulas de rescisão, sem valorizações à vista.


Nota: não sou especialista nem tenho formação em análise financeira de SAD’s e activos desportivos, pelo que aqui descritas estão meras opiniões de quem analisa balanços diariamente, não estando alheio a quaisquer erros de análise neste campo.


Jorge Manuel Honório, Gestor de risco

sábado, 10 de julho de 2010

Futebol de Gabinete

Vai o sangue, vêm as lágrimas

Após semana de reflexão e estudo sobre o 3º maior clube no futebol português, desde sempre candidato ao título, irei expor as minhas principais conclusões no plano organizativo, financeiro e desportivo do Sporting Clube de Portugal.

Neste sentido, darei a minha opinião (fundamentada em dados reais) sobre o plano financeiro, o plano administrativo e o plano desportivo, os 3 pilares que sustentam um clube de futebol e a forma de gerir o seu sucesso.

A evolução financeira do Sporting nos últimos 5 anos é-nos apresentada da seguinte forma (dados dos relatórios e contas oficiais retirados do site oficial do clube):




















Como verificamos, a evolução financeira do Sporting não tem sido nada favorável nos últimos anos, seguindo numa espiral de queda quer em termos de receitas (bilheteiras, merchandising, direitos televisivos, lugares cativos, etc) quer em termos de resultados líquidos (lucro/prejuízo). Tais factos prejudicam e muito a capacidade do clube em desenvolver um plantel competitivo e que, consequentemente, não atrai adeptos ao estádio.

A saída de Soares Franco e a entrada de Bettencourt, ao contrário de anteriores passagens de testemunho, decorreu (aparentemente) sem resílias e escaramuças entre presidentes, como sucedera anteriormente. Para muitos o melhor presidente de sempre do Sporting, Soares Franco deixa um legado de elevada responsabilidade ao seu sucessor, pois vejamos: um técnico já bastante fragilizado (Paulo Bento), resultados financeiros em quebra e um plantel pouco competitivo. Não obstante os erros cometidos por Bettencourt, a situação que herdou não era de todo famosa.

Um dos principais problemas da era Bettencourt está em conseguir um director desportivo competente e compatível com a estrutura e a cultura do clube. De Sá Pinto já lhe conhecíamos as «entranhas», pelo que não nos surpreendeu a sua saída prematura e o caso com Liédson (também ele outro reincidente), onde chegou mesmo a vias de facto. Seguiu-se Costinha que desde logo começou por revelar problemas com Izmailov (até aqui um jogador sem cadastro) e, outras vezes, proferir um tom de discurso e afirmações profundamente infelizes e de «comando militar». Causa ou consequência, o director desportivo não se livra de responsabilidades no «caso Moutinho», que aproveitou bem a fragilidade do seu director desportivo.

Parece-me, afinal, que não era o Moutinho a maçã podre mas sim o pomar que já só dava fruta do chão. Bettencourt e as suas atitudes, Sá Pinto e a sua violência, Costinha e a sua intolerância, Liédson e as suas mimadices, Izmailov e a sua disponibilidade física, Vukcevic e a sua impaciência, Polga e o seu desinteresse, Veloso e o seu amor pelo clube, Moutinho e a sua ambição. Todo este grande pomar parece estar podre e muito dificilmente o Sporting sem uma renovação conseguirá manter-se na maturidade.

São visíveis os efeitos da má gestão desportiva do clube nos últimos anos, onde em detrimento de se ir progressivamente e consoante as posses melhorando uma ou outra posição por época, o Sporting vê-se agora obrigado a renovar umas 4 ou 5 posições. O ciclo de poucas vitórias correlaciona-se positivamente (não favoravelmente) com a ausência de novas gerações de adeptos, especialmente se esse período se estender a mais de 10 anos.

Para agravar a coisa, é expectável que, tendencialmente, as receitas do clube caiam ainda mais este ano já que não me parece que com o sucedido nesta pré-época a afluência dos adeptos seja diferente da do ano passado. Mais grave ainda se o Moutinho render o dobro agora no Porto e aí voltarão as lágrimas, as mesmas da final de 2005.

Jorge Manuel Honório, Finance analyst

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Futebol de Gabinete

O «pagode» é que paga…

Recentemente tem surgido na imprensa notícias que dão conta de negociações do Benfica com a Sport Tv para a renovação do contrato sobre o direito das transmissões televisivas dos jogos de futebol. Fala-se, então, que o presidente do clube tem tecido ameaças aos accionistas do canal e que pondera procurar um novo parceiro para a concessão dos direitos televisivos. Ameaça mesmo, segundo fontes, lançar um concurso internacional para a abertura dos direitos de transmissão.

Ao que parece, o clube pretende um aumento na receita anual dos actuais 9 milhões de euros para 25 milhões de euros. Segundo o clube, o volume de audiências à custa dos jogos do Benfica e, portanto, a respectiva percentagem de receita comercial associada justificam tais exigências. O canal Benfica TV pertence ao Meo, marca explorada pela Portugal Telecom, enquanto que por outro lado a Zon tem participação qualificada na Sport Tv (50%). Para os críticos da adopção do canal peloclube, temos de reconhecer que esta foi uma jogada e uma estratégia arrasadora por parte do canal. Ter um pé na Zon e outro pé na concorrência: PT. Se o Benfica conseguir as pretensões para a próxima época ao nível das receitas televisivas, este será um caso de estudo para mais tarde seguir e recordar.

A adequação das receitas televisivas dos clubes é um tema que já abordei nesta rubrica anteriormente e à qual com base em estatísticas vimos que a percentagem que ocupam nas receitas totais dos clubes está, em minha opinião, subavaliada. A mais recente mudança de tom de Luís Filipe Vieira relativamente às negociações pode indiciar um ponto de acordo com a Sport Tv para a renovação do contrato. Tal será positivo para o clube, restando saber o que irão fazer FC Porto e Sporting para acompanhar o clube da Luz.

Ora como já estamos hoje habituados e ultimamente aprendemos a lição, quando alguém vê a sua despesa aumentar, obrigatoriamente a receita terá de subir caso contrário parte dos lucros serão absorvidos. Agora imaginem…se a Sport Tv for «obrigada» a aumentar a despesa para pagar mais pelos serviços prestados com o SLB, onde será reflectido esse aumento da despesa? Aumento da receita! E como será feito o aumento da receita do canal?...pois é! O reflexo do aumento das receitas dos clubes arrastará quebras nas margens de negócio da operadora participada pela Zon e pela Olivedesportos que, como sempre e em compensação, optarão por aumentar os preços ao consumidor. É a minha previsão.

Contudo, defendo não só uma entidade reguladora de preços para canais privados de televisão, de forma a controlar a «inflação» no sector, mas seria igualmente positivo que os clubes com capacidade financeira desenvolvessem os seus canais de TV próprios de modo a promover concorrência de preços no sector audiovisual desportivo. Sem concorrência não existe economia de mercado e, consequentemente, não existe serviço de excelência e orientado para o cliente.

Jorge Manuel Honório, Finance analyst

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Futebol de Gabinete

Federação Internacional da Fanfarra e Aberraria

Para variar e em mais um ano de mundial cujo verdadeiro espectáculo ainda não teve início e já estamos cansados de televisões e jornalistas, diria mesmo até de nós próprios, verificou-se o primeiro incidente com jornalistas espanhóis e portugueses num hotel sul-africano, seguido de um assalto a jogadores da selecção grega. Tais acontecimentos levantam os já anteriormente falados aspectos de segurança de grandes eventos em países com grandes dificuldades sociais, aspectos que são agora levados ao extremo ao constatar que facilmente um bando de marginais consegue entrar num hotel perto da capital do país. Creio que tal receio será perfeitamente legítimo atendendo a que as estatísticas do país registam uma média de 50 assassínios por dia.

Perante o evidente fracasso da procura de serviços para uma das maiores organizações mundiais e presentes pela primeira vez num país africano, interessa criticar a política de selecção completamente desastrosa da FIFA, quer no plano económico, quer no plano desportivo, quer no plano social. Em termos económicos, as exigências relativas ao plano de construção de novos estádios e de capacidades de audiência limitadas a um número elevado de espectadores são uma verdadeira «bomba» nos orçamentos destes países pobres que viverão completamente «afogados financeiramente» durante muitos e muitos anos (aliás como aconteceu com Portugal e tema que já escrevi anteriormente). Como sucedeu cá, daqui a menos de 5 meses começarão os políticos africanos a pensar (pelo menos) implodir os estádios que meses antes foram construídos. Em Portugal, apenas por vergonha e medo ainda não o foi feito. Em termos desportivos, outro desastre, já que as receitas em bilheteira nunca anteriormente foram tão diminutas, assim como a restante procura de serviços inerentes a toda a organização deste mundial. Quando existem apelos e indicações dos próprios jogadores para que os familiares não se dirijam àquele país, algo parece estar mal. No plano social passa a prevalecer uma «mistura explosiva» entre pessoal de alto rendimento, staff’s de todos os países, políticos estrangeiros, treinadores, jornalistas, investidores e uma pobreza extrema de salário médio diário do equivalente a 2 ou 3 libras.

Ver este panorama num país que terá a poucos metros de distância das barracas, onde residem mais de 40% dos habitantes nacionais, estádios com mais de 80.000 lugares é no mínimo asqueroso por parte da FIFA e dos governantes locais.

A visão desportiva como alavanca para desenvolvimento de um país não passa de uma miragem e de uma maneira de agravar todas as condições de vivência destes povos, isto porque não existe competitividade e rendimentos locais compatíveis com as exigências praticadas pelas organizações mundiais de grandes eventos desportivos. De hoje em diante, o povo sul africano carregará o fardo de pagar a dívida contraída para a construção de todas as infraestruturas que lhes foram exigidas.

Haja fome ou haja frio, tal terá de ser pago seja qual for a via. Resta esperar que esses sacrifícios não tenham um início mais prematuro que o desejado, para o bem de todos aqueles que participarão neste grande evento.

Jorge Manuel Honório, Finance analyst

sábado, 22 de maio de 2010

Futebol de Gabinete

Sabe de futebol e quer ganhar dinheiro? Então não hesite…

Parece um qualquer anúncio publicitário, mas não, apenas darei a conhecer aos meus amigos alguns produtos financeiros de baixo risco que podem ser bastante rentáveis caso as vossas previsões “futebolísticas” sejam certeiras, nomeadamente com os cartões de crédito da CGD.

Se é do Benfica e consegue prever que o seu clube praticará o melhor futebol, tiver os melhores resultados mas, acima de tudo, conseguir marcar maior número de golos, então parabéns pois ganhou um prémio de investimento nos mais recentes cartões de crédito Benfica da Caixa Geral de Depósitos. Este é um produto inovador que no ano transacto rendeu aos subscritores mais de 2.500.000 € em função dos 78 golos marcados no campeonato nacional. Existem dois tipos de cartões, o “Benfica Member Gold” que remunera os subscritores em 2 € por cada golo marcado pelo clube e o “Benfica Adepto” que remunera a 1,50 €. Obviamente, não esquecer que o montante final a receber depende da utilização que o cartão de crédito tiver (mínimo de 150 €).

Outro bónus é o “Lugar de Ouro”, uma iniciativa que consiste num meio de atrair espectadores ao estádio e consiste num sorteio para premiar um lugar do estádio, nas seguintes condições:

* 100% (€10.000): o sorteado é sócio do SLB e possui cartão de crédito Benfica
* 75% (€7.500): o sorteado não é sócio mas possui cartão de crédito Benfica
* 10% (€1.000): o sorteado é sócio mas não possui cartão de crédito Benfica

Um outro produto ainda é o tarifário das operadoras de telemóveis, neste caso para os 3 grandes clubes portugueses. Com preços de 0,16 € por chamada e 0,08 € por SMS em qualquer um dos tarifários dos 3 clubes, as chamadas são, ainda, grátis entre os subscritores destes produtos. As principais diferenças e que permitem distinguir um produto dos outros está no que toca aos carregamentos. O F.C.Porto oferece 5% do valor do carregamento em quotas de sócio, o Sporting oferece 5% do valor em pontos convertíveis em produtos diversos e o Benfica não oferece qualquer opção.

Como vêm, os meus amigos podem ganhar bastante dinheiro se forem adeptos atentos e perspicazes nas vossas previsões, juntamente com a vantagem de vos ser dada a possibilidade de utilizar produtos associados ao clube que seguem.

Jorge Manuel Honório, Finance analyst

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Futebol de Gabinete

Análise e recomendações à liga portuguesa de futebol profissional para o próximo mandato

Com ou sem campeão, começam os amantes do futebol a fazer as habituais previsões para a próxima época…quem será o presidente da Liga de Clubes, as novas contratações do Sporting, as futuras vendas do Benfica ou o próximo treinador do FCP.

Venho hoje destacar, também, um papel que me parece decisivo para além daquelas especulações. O próximo presidente da Liga deverá ser uma pessoa com uma visão e missão bem definidas, capaz de formular uma estratégia, boa ou má, mas capaz de definir uma meta para o período em que exercerá funções. Neste sentido, decidi deixar aqui algumas indicações que eu tomaria caso fosse nomeado para tal cargo. No curto prazo, seria para mim decisivo tomar quatro medidas principais e acabar o primeiro mandato com elas cumpridas.

Em primeiro lugar, avançar com a profissionalização dos árbitros e isso não para «descentralizar a bandalheira», mas sim para que seguidamente se possa avançar com o intercâmbio europeu de árbitros. Esta medida é fundamental para a verdade do futebol e para quem não quer, por nada, a adopção dos meios tecnológicos. Só assim se consegue dar fim às suspeições de clubismos aquando das nomeações dos árbitros portugueses.

Em segundo lugar, avançaria com o famoso «9+2» no 2º ano do mandato. Este sistema consiste na obrigatoriedade de cada equipa portuguesa ter de entrar em campo com 2 jogadores portugueses (mínimo) e esses dois jogadores só poderem ser substituídos ao fim de 40 minutos, excepto se por outro português. O «9+2» passaria a «8+3» no 3º ano do mandato e até ser possível concretizar o «7+4» final. Esta era uma medida destinada a defender o futebol português e a trazer maiores benefícios, equilíbrio e nacionalidade à selecção nacional.

Em terceiro lugar, uma medida algo polémica mas para defender a saúde financeira dos clubes e promover maior justiça na competitividade do campeonato: limites ao endividamento. Neste sentido, os clubes portugueses passariam a ter um limite máximo de aumento do passivo em 20%. Suponhamos que um clube tinha um passivo de 100. Em cada ano, ele só poderia gastar 20. Claro que caso vendesse um jogador por 30, aí poderia endividar-se em 50. É uma medida que garante o nosso futebol por muitos anos, o defende de dirigentes corruptos ou mal intencionados (caso do Boavista, por exemplo) e não dá azos a «operações corações». Com esta medida, clubes como o Salgueiros, o Farense ou o Boavista não teriam «acabado».

Por fim, uma última medida, a menos importante, poderia passar por uma lei que permitisse um máximo de 2 treinadores por clube, por época. É uma medida que promoveria maior exigência sobre quem gere o clube e onde se impediria de «enchovalhar» os treinadores como muitas vezes se faz. Com esta medida, os culpados passariam a ser os dirigentes porque teriam sido eles os responsáveis pelos 2 treinadores que foram colocados no clube.

Este seria o meu programa para um mandato à frente da Liga de Clubes e não escondo que teria muita satisfação caso visse algumas destas medidas adoptadas nos próximos anos.


Jorge Manuel Honório, Finance analyst

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Futebol de Gabinete

O sorriso amarelo-encarnado

Como já era esperado por todos e seguindo a tendência dos investidores portugueses, o empréstimo obrigacionista do Benfica foi um sucesso, permitindo ao clube encaixar 40 milhões de euros de imediato. No dia em que a Euronext comunicou o sucesso da emissão, que aliás superou em mais do triplo a oferta disponibilizada e caso o Benfica tivesse pretendido, poderia ter encaixado até mais de 100 milhões de euros, as instalações da bolsa de valores de Lisboa foram, quase «saloiamente», invadidas pelos dirigentes benfiquistas, pela águia Vitória e até pelas cheerleaders do clube.

O enorme e indisfarçável sorriso de Filipe Vieira esconde todos os problemas que, ao bom estilo dos novos ministros que vão surgindo em Portugal, não são visíveis por quem não tem a capacidade mas são perceptíveis por quem no dia a dia sabe com o que lida. A realidade é que este empréstimo obrigacionista é o terceiro em apenas 6 anos, num total de endividamento correspondente a 75 milhões de euros, sem contarmos com os empréstimos das instituições de crédito!! No mesmo período, foi negociado um empréstimo para tesouraria de 40 milhões de euros e a famosa criação do fundo para trespasse de participações nos principais jogadores do Benfica. O presidente do clube desculpa-se com o facto de, para compensar tamanho passivo, possuir os melhores e mais valiosos activos dos últimos 10 anos, o que não corresponde bem à verdade já que o clube detém umas percentagens e o fundo detém o restante”.

Imaginemos que o Benfica este ano vendia 2 jogadores, o Di Maria por 30 milhões e o David Luiz por 25 milhões. Do total de 55 milhões, o Benfica arrecadaria menos de 43 milhões de euros, já que 25% e 20% dos passes, respectivamente, são detidos pelo fundo. Pior ainda, o Benfica ao criar 3 empréstimos obrigacionistas no total de 75 milhões de euros e assumindo que os 3 juntos pagam uma taxa média de 6% (como este último), em 2013/2014 terá de pagar aos subscritores não apenas os 75 milhões de volta, mas inclusive mais 5 milhões de juros. Quer dizer, o Benfica ganha agora 75 milhões, mas daqui a 4/5 anos terá de pagar 80 milhões de euros e mais de 5 milhões de juros ao ano.

Como vai o Benfica daqui a uns anos pagar 5 milhões de euros ao ano em juros, se já nestes últimos anos só tem tido prejuízos e tem acumulado empréstimos e mais empréstimos? Vendendo uma estrela todos os anos? Provável. Voltará a contratar o Rojas e o Escalona? Para lá caminham. Viver com dinheiro que não é nosso nunca foi boa política na vida.

O Benfica acumulou, nos últimos 30 anos, um passivo na ordem dos 150 milhões de euros. No período correspondente aos últimos 3 anos, o Benfica conseguiu aumentar o passivo até aos 340 milhões de euros. Tanto em 3 anos como nos últimos 30! O presidente afirma que, se necessário, vende os jogadores do plantel para liquidar o passivo que criou, mas não diz que isso deverá ser, obviamente, no dia em que sair do Benfica. Como diria o povo, uns saem mas o clube fica e com certeza que os benfiquistas não desejam alienar 10 anos de glória em troca de um campeonato nacional.




E, no fim, não venham dizer que a culpa foi dos bancos e do governo…

Jorge Manuel Honório, Finance analyst

sábado, 10 de abril de 2010

Futebol de Gabinete

Um coração prestes a explodir

Não foi com surpresa que recebemos, na última semana, a notícia que a SAD do Benfica emitiu mais um empréstimo obrigacionista ao mercado, já que as necessidades de financiamento vêm seguindo um caminho ascendente e a necessidade de colmatar os prejuízos do ano estão à vista.

Um empréstimo obrigacionista é, na minha opinião, um excelente instrumento de financiamento de empresas e clubes e (em muitos casos) mais barato que qualquer empréstimo junto dum banco. O grande problema é que nos empréstimos bancários trata-se de “convencer” os técnicos da banca de que o proponente tem solvência para cumprir com o reembolso e quanto maior risco os analistas detectarem nessa capacidade, maior são os juros que vão, consequentemente, cobrar.

No empréstimo obrigacionista, trata-se de “convencer” o público em geral (não apenas sócios como alguns julgam), já que até sportinguistas podem subscrever títulos do Benfica e vice-versa. Estes empréstimos procuram, diria, têm mesmo de favorecer o emissor e o subscritor, já que da parte do clube, quanto mais pessoas subscreverem os títulos, mais dinheiro o clube recolhe, garantindo para quem subscreva, o reembolso mais os juros no vencimento do empréstimo. Para os subscritores, trata-se de uma poupança de alto rendimento «à la clube», numa altura em que os depósitos a prazo dos bancos nos pagam menos de 1% (abaixo da inflação, fazendo-nos perder dinheiro sem «darmos por isso»).

Mais propriamente sobre esta emissão, diria que não é especialmente atractiva e passo a explicar. Tendo em conta os 6% que o clube paga por ano aos subscritores, o valor, assim às claras, é melhor que qualquer produto que esteja por aí no mercado. O problema aqui é se o Benfica consegue, ou não, cumprir com os pagamentos nos próximos 3 anos. Como se sabe e já foi aqui demonstrado, o passivo do clube subiu quase o dobro este ano, situando-se em mais de 300 milhões de euros. (Porto e Sporting têm cerca de 150 milhões de euros de passivo). Neste sentido, ninguém, com seriedade, consegue dizer o que é ou como está o Benfica daqui a 3 ou 4 anos.

Mais ainda, estas ofertas têm de ser comparadas com o mercado. A emissão obrigacionista do Porto pagou, também, 6% e a do Sporting 7,15% e são SADs muito menos deficitárias que a do Benfica. Se as outras pagam 6% e 7% e estão bem mais equilibradas que a do Benfica, não acho que o preço pago pela SAD da Luz seja um preço justo. A título de exemplo, a SAD do Manchester Utd é a mais bem estruturada do mundo e a última emissão foi um “flop” e teve de pagar mais de 8%. Apraz-me concluir que a emissão do Benfica está muito “baratinha” e paga muito pouco em relação ao elevado risco da dívida que representa para o público.

Se o Benfica conseguir angariar os 40 milhões de euros do empréstimo, cá estarei para dar os meus parabéns à administração financeira do clube, já que com 2 ovos conseguiu fazer 4 omeletas, mesmo que seja à custa da iliteracia financeira da sociedade portuguesa.

Jorge Manuel Honório, Finance analyst

sábado, 27 de março de 2010

Futebol de Gabinete

Monopolizados pela TV

Decerto que muitos de nós, incluindo eu, estiveram atentos às declarações do presidente do SLB acerca da justiça associada às receitas televisivas que os clubes portugueses recebem, anualmente. Neste sentido, procurei informar-me sobre a situação e tentei desenvolver uma relação e comparação com o resto da Europa.

Consegui, desde logo, isto:

Uma primeira reflexão «sobe-nos» à cabeça. Não somos «nada» no contexto europeu. Verifico que só as receitas televisivas dos clubes do «top 10» europeu chegam para superar o total das receitas dos 3 clubes portugueses. Ou seja, as receitas dos clubes em Portugal com bilheteiras, mais direitos TV, mais merchandising, mais cativos, etc, todas somadas, não chegam para as receitas televisivas de qualquer um dos dez maiores clubes europeus. Assim sendo, pergunto aos leitores: o futebol que praticamos em Portugal (pelo menos ao nível dos 3 maiores clubes) adequa-se ao valor das receitas que os clubes portugueses recebem das emissoras televisivas? Um futebol que já «exporta» talentos em valores acima dos 20 milhões de euros, um futebol técnico, constituído por grandes talentos individuais e marcado pelo constante aparecimento de jovens estrelas.

Parece-me que, relativamente à receita televisiva, o mercado português do futebol está subavaliado. As emissoras aproveitam a baixa receita dos principais clubes para ganharem direitos transmissivos a preços de saldo. Mais ainda, verificamos que nos outros clubes essa receita representa quase metade da receita total (em Itália até representa mais de 50%), mas em Portugal nem 30% tem de influência na riqueza total gerada.

Vejamos o exemplo actual do Benfica. Segundo os dados possíveis, estima-se que mesmo que o Benfica vá à final da UEFA e vença o campeonato português, a receita televisiva será, todavia, inferior à receita de clubes como o Fenerbahce, o Nápoles ou o West Ham, no encerramento da época.

Concluo, dizendo que me parece que a Federação Portuguesa de Futebol não está a defender os interesses dos clubes portugueses no panorama externo, não procurando, pelo menos, uma das soluções que está à vista, para mim. Defender a abertura das fronteiras portuguesas à competição de empresas estrangeiras com a Sport Tv em Portugal, facto que proporcionaria o fim do monopólio e abriria portas à competição de preços e em que quem pagasse mais, ganharia o direito às transmissões. É assim que funciona o capitalismo de mercado, é assim que se cria justiça e se atribui mérito a quem oferece as melhores condições.

Está na hora de darmos o devido valor à sociedade portuguesa e de colocarmos, nos cargos, responsáveis que saibam dar a mão ao nosso futebol, ao já comprovado grande futebol português que, sem dinheiro, está e estará sempre limitado na alta esfera do futebol mundial.

Jorge Manuel Honório, Finance analyst

sexta-feira, 12 de março de 2010

Futebol de Gabinete

Quanto custa um campeonato?

Durante a semana passada foram divulgados à Comissão de Valores das empresas cotadas os resultados referentes a 31/12/2009, o período correspondente ao fim do 1º semestre para os clubes de futebol cotados em bolsa: Porto, Sporting e Benfica. Hoje vamos analisar o panorama e ver as grandes diferenças relativamente ao período homólogo.

Futebol Clube do Porto

Continua a ser o clube português com mais proveitos. O mais surpreendente é que, apesar de ser o clube que vendeu mais jogadores (ou pelo menos aquele que fez mais receita com as vendas), continua a ser o clube que recolhe mais receita operacional, significando isso que apesar da perda evidente da competitividade do plantel, a receita de bilheteira + direitos televisivos + merchandising não sofreram grandes alterações (nalguns casos até cresceram essas receitas). O baixo passivo e os elevados proveitos, com e sem receitas da venda de jogadores, continuam a fazer do clube o grande exemplo do futebol português.











Sporting Clube de Portugal


É o clube, direi, mais modesto dos três grandes. É o que tem menores receitas operacionais e também não encaixou verbas com vendas de jogadores. Relativamente aos indicadores de dívida, está numa posição financeira semelhante à do FCP, nunca esquecendo que, ao contrário do clube do norte, não apresenta um plantel competitivo. Um excelente treinador para o actual plantel poderia ser um grande passo para o clube de Lisboa.

Sport Lisboa e Benfica

Surpreendentemente para muitos, até Dezembro do ano passado (pelo menos), o Benfica teve menos proveitos que o FCP, mesmo apesar de tantos golos marcados e do futebol atacante e atractivo que pratica actualmente. É certo que a participação do FCP na Liga dos Campeões contribui para a ascensão dessas receitas mas, mesmo assim, esperava uma maior aproximação do Benfica. Mas é no exponenciar do endividamento que está o grande desafio para o futuro do clube. Em juros por ano à banca, o Benfica já paga o triplo que pagam FCP e Sporting e, ao nível do passivo, já ascende a quase 350 milhões de euros, contrastando com os 150 milhões contabilizados por Porto e Sporting. Apesar da dívida do FCP ser quase toda a menos de 1 ano, as responsabilidades que o Benfica tem a assumir no final do presente ano são, todavia, duas vezes superiores às que o FCP tem de suportar no mesmo período.

Situação financeira – Passivo

Nos relatórios apresentados pelos clubes, destacamos um grande endividamento do Benfica em relação ao ano passado. Neste caso, de longe o mais grave, o crescimento da dívida permanente arrastou o crescimento da dívida de curto prazo (como verificamos no gráfico) e perante o facto, quase certo, do Benfica apresentar resultados consolidados negativos no final desta época, as receitas que irão pagar este passivo a menos de 1 ano só poderão advir de duas formas: mais empréstimos na banca (não a solução mais desejável já que assim o passivo imediato era liquidado, mas o passivo a longo prazo iria crescer, hipotecando os orçamentos futuros), ou a venda de jogadores/património. A situação é grave e perante a exigência dos credores para que o Benfica cumpra as suas obrigações, o clube, como não terá lucros, terá de optar pelas tais receitas extraordinárias atrás mencionadas.

Benfica campeão, ou não, mentalizem-se os benfiquistas: a equipa para o ano não será a mesma. Além do mais, o clube vê-se obrigado a fazer receita nos próximos anos para pagar o crescente endividamento que tem apresentado actualmente e, se essa receita não vier dos resultados desportivos dos próximos anos, virá então da venda interminável de activos (património e jogadores).













Nota: este texto é dedicado ao meu amigo e ex-colega Hugo Pereira que venceu, recentemente, a eleição para presidente da AIESEC, a maior organização mundial presente em 110 países do mundo e gerida exclusivamente por estudantes e recém-licenciados. Um grande abraço.

Jorge Manuel Honório, Finance analyst

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Futebol de Gabinete

O ataque do betão – As consequências e a realidade económica dos estádios do Euro 2004

Para muitos foi indiscutível o sucesso do Euro 2004 em Portugal e, apesar de para mim ter sido só mais um e igual a muitos outros, já que não vi grandes diferenças entre a qualidade daquele e de outros, reconheço que correu pelo melhor ao nível da organização e do espectáculo dentro do campo. Pena que a selecção não tenha conseguido mais a jogar «em casa».

Como em tudo na vida, só existe sucesso com bom senso e bom senso com respeito e uma visão. Todas as obras exigidas pela UEFA para a realização do evento foram levadas em conta sem peso e medida e, acima de tudo, sem respeito pela classe e o interesse nacional dos agentes desportivos, como aliás veremos ao longo desta análise.

Muitos perguntam hoje se terá sido mesmo verdade que a Federação Portuguesa de Futebol e o Governo (prefiro nem lhe chamar Estado) acreditaram que dez «mamarrachos» mudariam a vida do futebol nacional? Será que não foram feitas previsões centradas nas condições financeiras dos clubes portugueses? Será possível que o histórico de espectadores nos estádios foi subitamente esquecido/ignorado aquando da decisão de avançar para o «ataque do betão»? E os clubes? Terão sido ouvidos os representantes de cada um deles? Se realmente era uma obra ruinosa, porque não houve demissões na altura e hoje todos criticam e querem mudanças? Uma coisa parece certa: as estatísticas e previsões de espectadores nos estádios, o peso percentual da riqueza per capita da população portuguesa na Europa e as condições económicas dos clubes e autarquias para as actividades de exploração dos recintos foram todos ignorados pelos agentes governativos.

A realidade está no resigno de que foram mesmo construídos dez estádios para o Euro 2004, apenas nove dos quais estão a ter utilização regular. O estádio do Algarve, à data que foi construído e ainda hoje, não tem qualquer utilidade já que nenhum clube do Algarve ou do Alentejo joga nele…como aliás era de ver naquela altura (neste caso nem era necessário prever nada). Consta que se faz lá uma espécie de final qualquer, uma vez por ano. O estádio do Bessa XXI é o recinto oficial do Boavista FC, clube despromovido por corrupção e com dívidas às finanças e à segurança social. Os estádios de Aveiro e Leiria são propriedade das respectivas câmaras municipais, recintos com capacidade média de 30.000 lugares mas que não passam de uma assistência média de 3.000 espectadores por jogo. Autênticos monumentos de cimento! Já o estádio de Coimbra passou para a administração da Académica FC que ficou completamente «afogada» pelas despesas operacionais de manutenção e aproveitamento do recinto, com óbvios reflexos nos orçamentos para transferências de jogadores e relatórios & contas do clube. Por mais caricato que pareça, neste caso, o estádio novo até veio tirar competitividade ao clube que nele joga.

A fedorenta realidade deste «lixo» que sobrou do mundo maravilhoso dos estádios de futebol é uma realidade que nos veio chamar mais cedo para a política que rege este país e cujos prevaricadores não parecem ter sido responsabilizados pelos seus actos. A linha política que provou não governar em prol da nação (nação representada, neste caso, por clubes e autarcas) mantém-se inalterada e no poder, mesmo apesar dos afectados se manifestarem contra aquilo que para muitos e para os próprios foi a maior vergonha que alguma vez sucedeu na nossa passiva espécie de democracia.

Jorge Manuel Honório, Finance analyst

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Calabote: a verdade da mentira? – II


Prosseguindo a análise ao Caso Calabote e descritos os acontecimentos da última jornada desse campeonato, abordemos agora as notícias publicadas nos jornais dos dias seguintes e algumas opiniões de jornalistas e adeptos à data, numa tentativa que, obviamente com limitações qualitativas, procurará repor a verdade (ou não) do desfecho do caso.

Sendo certo que, naquela altura, as perdas de tempo em campo não previam sanção desportiva, disciplinar ou pecuniária, era usual muitas equipas (nomeadamente as de menor dimensão) provocarem demoras na reposição da bola em campo ou nos lançamentos livres. Esta é uma situação que, certamente, dificultava a gestão do jogo por parte do árbitro e o seu sancionamento destas situações, bastante frequentes.

Os principais jornais, à época, destacaram diferentes pontos de vista.

Alfredo Farinha do jornal “A Bola” referiu que, durante o jogo do Benfica, a constante demora nos pontapés de baliza, na marcação dos livres directos, nos lançamentos de linha lateral e nas simulações de lesão tiveram uma razão de ser: a CUF não jogou apenas para si própria mas também para outro clube que jogava à mesma hora, já que tais atitudes não se justificavam estando a perder por imensos golos. Relativamente à actuação do árbitro, Farinha defendeu que Calabote teve toda a legitimidade em aplicar o polémico tempo de descontos.

Guilhermino Rodrigues do jornal “O Mundo Desportivo” foi, ainda, muito além desta análise. Considerou, até, o tempo de compensação muito diminuto face à situação que se verificou no jogo e ao constante anti-jogo por parte da CUF, mesmo perdendo por mais de 6.

Já o jornal “Record”, o tal que todos dizem ser sportinguista, afirmou que os 4 minutos de desconto dados por Calabote foram correctos em detrimento do que já tinham afirmado os outros jornais da concorrência. Dos tão falados penaltis duvidosos no jogo da Luz, o “Record” defendeu que, dos 3, apenas 1 foi duvidoso, apesar de por critérios técnicos (em vez de pénalti deveria ter sido marcado livre indirecto dentro da área), ou seja, a falta dentro da área existiu mesmo por parte do adversário e, portanto, o árbitro não inventou falta ou contacto nenhum…ele existiu.

Alguns adeptos que assistiram às peripécias desse tempo referem que o Benfica não foi em nada beneficiado com a arbitragem de Calabote, argumentando, mesmo, que este até teria tido a possibilidade de ter dado o campeonato ao Benfica já que o último golo foi aos 80 minutos de jogo e o Benfica dispunha ainda de mais 14 minutos para fazer o derradeiro golo. Mais ainda, no final do jogo Benfica – CUF, o treinador da CUF citou a seguinte afirmação: “O resultado justifica-se, mas o árbitro foi demasiado longe na marcação das grandes penalidades. Não achei justo que assim sucedesse. Pena foi que não adoptasse agora no final o mesmo critério, não assinalando um autêntico “penalty” quando Durand (CUF) derrubou Cavém (Benfica). Era quanto a mim mais razoável”.

Além do mais, a concentração das atenções no jogo da Luz permitiram «esvaziar» os acontecimentos do jogo em Torres Vedras. Segundo consta, o Torreense sofreu o primeiro golo enquanto estava um jogador fora de campo a ser assistido. Aos 20 minutos de jogo, foi expulso o primeiro jogador do Torreense, sendo um segundo jogador igualmente expulso logo a seguir ao 0-2 para o FCP, apenas por ter pontapeado a bola para longe aquando desse mesmo golo. Parece-me, portanto, que os casos não sucederam apenas no Benfica-CUF.

Para que a nossa opinião possa ser mais consistente, e pegando em factos enunciados por alguns blogues de adeptos do futebol, refiram-se outros 2 árbitros que acabaram, assim como Calabote, por ser irradiados da sua actividade desportiva:

Reinaldo Silva: Irradiado em Fev-1963. Numa disputa de bola a uma distância razoável da grande área, o avançado Torres do Benfica cai e, para espanto de todos, o árbitro marca penalti contra o FCP. O Benfica acabou por ganhar 2-1, passando a liderar o campeonato e acabando por ser campeão. Segundo se disse posteriormente, ao ábritro da partida viria a ser oferecido um automóvel pelo presidente do Benfica, o Sr. Nascimento Cordeiro.

Porfírio Silva: Na 2ª época de Pedroto no FCP, num jogo Benfica-Porto, o árbitro favorece o Benfica com um penalti duvidoso por mão pretensa na área e, posteriomente, o FCP empata mas o golo é anulado, apesar de ter sido marcado com o peito em cima da linha de golo.

Estes são os factos que alimentam a tão famosa e antiga lenda Calabote. Como sempre acontece nestes casos, muito se escreveu, muito se debateu, pouco se esclareceu. Foi publicado, no passado dia 7 de Fevereiro, um livro baseado numa pesquisa pessoal de um jornalista de 24 anos, onde o leitor poderá encontrar mais informação acerca do caso.

Nota: a partir de hoje a rubrica Futebol de Gabinete vai passar a ser quinzenal em função de uma necessidade pessoal de ajustamento temporal para a realização de outros projectos do “forno” académico. :) Caso os leitores queiram colocar alguns temas que gostariam de ver aqui abordados na rubrica, indiquem-mo para o e-mail jmhonorio32@gmail.com.

Jorge Manuel Honório

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Futebol de Gabinete

Calabote: a verdade da mentira? – I

Em 22 de Março de 1959 viria a suceder O caso, o que daria mais que falar na história do futebol português. O Caso Calabote! Inocêncio Calabote era um árbitro reputado àquela data, originário de Évora e já, por diversas vezes tivera sido distinguido por órgãos colectivos ligados ao desporto. A Comissão central de Arbitragem já o considerara como melhor árbitro português na época 1952-1953 e integrante dos quadros da FIFA em 1953-1954 e 1956-1957.

Benfica e Porto empatados na classificação na última jornada do campeonato. O Porto estava em vantagem no “goal average” tinha 78-22 contra os 71-19 do Benfica que precisava de ganhar por uma diferença superior a 4 golos em relação ao rival. O Porto jogava em Torres Vedras com o Torreense e o Benfica recebia a antiga CUF no estádio da luz. O árbitro do jogo da luz era o tal Inocêncio Calabote. De seguida, passarei a enunciar os factos que, posteriormente, viriam a oferecer maior polémica à jornada e ao final do campeonato que, atenção, acabou por ser ganho pelo FCP:

• O jogo do Benfica começou mais tarde que o do FCP estando os jogos agendados para a mesma hora.

• O Benfica vencia 4-0 ao intervalo e o guarda redes da CUF foi substituído dada a sua prestação na primeira parte ter sido bastante aquém das expectativas e, segundo algumas opiniões da época, a pedido dos próprios colegas. O Porto ao intervalo ganhava por 1-0 e continuava em vantagem, bastando ao Benfica marcar apenas mais um e o Porto mais nenhum.

• No jogo da Luz, 3 golos do Benfica foram de grande penalidade, o que permitiu ao José Águas ultrapassar o Teixeira (FCP) na lista dos melhores marcadores do campeonato.

• O Porto, já no final, acaba por marcar 2 golos, acabando por vencer por 0-3 e tendo que ficar a aguardar pelo fim do jogo do Benfica que, para além do atraso do início, ainda teve um tempo de compensação de 4 minutos (que a somar aos 4 minutos de atraso do início do jogo: 8 minutos no total).

Consequentemente, foi aberto um processo de averiguação aos casos sucedidos no jogo. No final do processo de averiguação, Calabote foi acusado de ter mentido no relatório de jogo, escrevendo que o jogo tivera início às 15h00 e fim às 16h42. Foi, por fim, irradiado do Futebol. Para sua defesa, o árbitro referiu que o seu relógio é que valia e que nunca se enganava porque era acertado pelo relógio da Sé de Évora. Acusado de corrupção, dissera que nunca tinha recebido um tostão. O fiscal de linha referiu que foram precisos 3 minutos para afastar os fotógrafos nos instantes iniciais da partida.

A juntar à defesa, Calabote queixou-se de uma perseguição da nova liderança da arbitragem, devido a casos mais antigos: “O presidente anterior do conselho de arbitragem veio a Évora avisar-me e disse-me: ponha-se a pau que a comissão que entrou vem com intenções de o irradiar”.

Com esta história, ainda hoje muito se especula acerca da verdade desportiva desse campeonato que, apesar de ganho pelo FCP, ficou para sempre a «sombra» de que o mesmo estaria destinado, na «secretaria», ao Benfica.

Na próxima semana apresentarei opiniões e artigos de jornais da época e mesmo alguns relatos de que essa jornada, precisamente, foi, afinal, em benefício do campeão nacional.

Jorge Manuel Honório

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

José Maria Pedroto – A memória a um retrato quase esquecido (Parte II)

Pedroto tirou o curso de treinador ainda enquanto jogador, tendo sido o primeiro português a integrar a tão famosa Federação Francesa. Aí, viria a apresentar uma tese com os 17 princípios de jogo da sua própria autoria e à qual viria a obter uma brilhante classificação (entre os 87 inscritos, apenas cinco passaram, sendo Pedroto o único português nesse lote).

Mais tarde e já como treinador, era inovador na concepção táctica, na acção psicológica junto de adversários e na disciplina. Diz-se ter sido o primeiro treinador em Portugal a obrigar os jogadores a aquecerem no relvado antes da palestra para o jogo, o primeiro a introduzir preparadores físicos, o primeiro a obrigar os jogadores a alongarem depois de cada treino e, acima de tudo, o primeiro a estudar verdadeiramente as forças e fraquezas dos adversários.

O bom trabalho na formação do FCP levou-o também à selecção de juniores onde, em 1961, venceu o Torneio Internacional da Uefa, agora denominado de Europeu de Futebol. A primeira experiência com uma equipa sénior foi na Académica, seguindo-se o Leixões e o Varzim. Neste último, revelou a qualidade de jogo que se tornaria na sua imagem de marca, sempre com muita posse de bola e virado para o ataque.

A experiência acumulada permitiu-lhe regressar ao FCP em 1966 onde durante três épocas venceu apenas uma taça de Portugal, imediatamente antes de ser despedido. O momento sucedeu quando o presidente do clube, à data, não quis pagar mais sete contos para que a viagem de regresso da Luz fosse de avião. Aí, Pedroto atirou: “Não posso fazer guerra e poupar balas e gasolina”. Ao ser demitido, exigiu uma indemnização de 400 contos, 300 dos quais por danos morais, o que culminou com a lei de proibição de algum dia poder voltar mais ao FCP.

Orientou, entretanto, no Setúbal, onde teve cinco épocas de grande sucesso, com o melhor campeonato de sempre para os setubalenses, para além de ter chegado 2 vezes aos quartos final da taça Uefa. Entretanto, rumou ao Boavista onde foi vice-campeão e onde venceu, ainda, 2 taças de Portugal.

Num certo dia, aquando do seu habitual convívio num jogo de cartas com o “bitaites”, o Valentim Loureiro, o Pinto da Costa, entre outros, o actual presidente do Porto não tardou a convencer Pedroto a regressar às Antas, não antes da Assembleia Geral decidir anular o despacho que impedia o treinador de voltar a ser funcionário do clube. Consumava-se o regresso de Pedroto ao FCP. O primeiro ano serviu para realizar ajustamentos, os quais viriam a possibilitar a conquista do título de campeão português passados 19 anos. No final, o treinador caracterizou o feito como “a ultrapassagem do complexo da Ponte da Arrábida”, numa clara alusão ao fim da centralização de todos os poderes em Lisboa. Neste período, passou a tornar-se famoso por algumas afirmações públicas como “um brasileiro é bom, dois é demais, três é uma escola de samba”, “temos de lutar contra os roubos de igreja no estádio da Luz”, “passámos de pombinhos provincianos a falcões moralizados” ou “quando disse que Mário Wilson era um palhaço, não estava a querer ofender os palhaços”.

Por fim, a soma de carisma e perspicácia de Pinto da Costa e de Pedroto tinha resultado não só na reorganização de todo o futebol, mas também numa estratégia de afrontamento dos rivais lisboetas e de todos os poderes instituídos. Na terceira época no FCP, não conseguiu atingir o “tri”, acabando por descobrir no início da época seguinte que tinha um cancro nos intestinos. Seguiram-se viagens infindáveis a Londres, numa luta inglória que o impediu de se sentar no “banco” a partir da 10ª jornada. Em 1984 recebeu a ordem do Infante do presidente Ramalho Eanes que se dirigiu ao Porto para lhe entregar, pessoalmente, o prémio.

Faleceu passado um ano, não deixando de concretizar o seu último desejo de beber um whisky (através de uma colher) e fumar um cigarro na madrugada desse dia fatídico. Todavia, já não foi a tempo de ver o FCP campeão europeu no final dessa época, equipa com todos os jogadores e métodos implementados pelo “mestre” (como era designado).

José Maria Pedroto foi uma figura cujo fim trágico e comovente não nos leva simplesmente uma lágrima nos olhos, mas sim a engrandecer o orgulho que toda a sociedade lhe deveria prestar, a ilustridade de uma personalidade inigualável, um treinador com uma dimensão de toda uma estrutura e que, passados 25 anos, é um ícone e exemplo para qualquer treinador português. José Maria Pedroto, que muitos ainda procuram imitar, foi um verdadeiro fenómeno, um conceito projectado para o futuro na sua classe e com alicerces no confronto anímico e popularidade seca e «cabrestre» de um clássico matosinhense. Infelizmente, poucas referências encontramos a seu favor, nem uma estátua, uma homenagem, um grande prémio ou uma denominação que preconize a verdadeira e merecida distinção.

“O verdadeiro calcanhar de Aquiles do nosso futebol reside no simples facto de quase todos pensarmos que, quando saímos dos estádios, já não somos profissionais de futebol”

José Maria Pedroto – Faleceu a 8 de Janeiro de 1985



















Jorge Manuel Honório




sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Futebol de Gabinete


José Maria Pedroto – A memória a um retrato quase esquecido (Parte I)

Hoje terei a honra de prestar a minha homenagem, e em nome do Livre Directo, a uma das mais ilustres figuras do futebol português e do respectivo contributo dado para o avanço nesta área. José Maria Pedroto. Na medida em que não me atrevo a fazer resumos da sua carreira e já visto, anteriormente, que procuro resumir ao máximo os meus textos para que não seja maçador para o leitor e porque este nem sempre tem tempo para se dedicar à «leitura cibernauta», optei por dividir esta homenagem em duas partes. A primeira irá focar-se nalguns aspectos gerais e na carreira como futebolista desta personagem, restando à segunda parte informar sobre o projecto de Pedroto como treinador e o final feliz da história deste treinador.

Não deixa de ser espantoso que uma personalidade como esta tenha caído no esquecimento pelos grandes intervenientes e dirigentes de ligas e federações do futebol português. Se não fossem os jornais e os media (ao menos esses e nem sempre) provavelmente teria passado despercebido a toda a gente, incluindo o «pessoal da bola». Tem sido habitual. Recordo-me, por exemplo, da morte do John Dunning o ano passado e que apenas o Público fez referência através de uma coluna de opinião por um professor da respectiva área.

José Maria Pedroto foi uma figura consensual da sociedade do futebol, o melhor treinador português de todos os tempos. Dele contam-se mais de 500 histórias daquela época. Os grandes intelectuais do futebol classificam-no como uma pessoa intuitiva, frontal, estudiosa e, essencialmente, visionária. Nunca usava roupa nova no dia dos jogos e sonhava constantemente com “copos de whisky e o fumo do tabaco”. Diz-se que o treinador passava a vida de fato de treino, mesmo quando treinava o seu clube do coração e que o trouxe à mais alta ribalta da sua carreira: o Futebol Clube do Porto.

Actualmente, para muitos portistas, Pinto da Costa era o decisor operacional e Pedroto o ideólogo, titular da sublevação que nos anos 80 começou a derrubar a tão falada ditadura dos resultados imposta por Benfica e Sporting. Libertou o FCP dos complexos de inferioridade e desenvolveu a máquina do sucesso interno, projectando o clube, ao mesmo tempo, para o projecto europeu. Para Fernando Vaz, seu antigo treinador no Belenenses, Pedroto foi a figura mais fascinante que conheceu entre os homens do futebol.

A proximidade do treinador a Matosinhos fez com que jogasse nos juniores do Leixões, clube onde recebeu a sua verdadeira lição de vida quando, num jogo disputado no estádio do Bessa, Pedroto fintou todos os adversários que lhe apareceram, incluindo o guarda-redes e, antes de marcar o golo, colocou a bola em cima da linha de baliza. Neste momento, acabara de puxar os calções e ajeitar o cabelo e só depois é que rematou a bola para golo. Saiu de campo em ombros pelos colegas e aplaudido pela bancada mas, já no balneário, encontrou um treinador verdadeiramente mal disposto e levou «a reprimenda». Chorou para nunca mais esquecer.

Posteriormente, a jogar no Lusitano de Vila Real de Santo António, despertou o interesse de vários clubes, acabando por rumar ao Belenenses por 25 contos. Passado nem um mês, para manter a sua própria palavra e compromisso com o clube, recusou um cheque de 80 contos para rumar ao FCP, transferência que se viria a consumar no ano seguinte, realizando a primeira mudança para o clube da invicta.

Pedroto teria o seu primeiro contacto com o FCP que, na altura, ainda não era liderado por Pinto da Costa. Desconhecia o próprio, com grande probabilidade, que seria este primeiro contacto apenas o princípio de uma etapa longa e de reviravolta no espírito e mentalidade portista.

Jorge Manuel Honório

sábado, 16 de janeiro de 2010

Futebol de Gabinete


Sporting Clube de Portugal: Case Study de 09/10 – Parte II

…não devendo acobardar-me perante os problemas diagnosticados a semana passada e assumindo a importância do diagnóstico de soluções para este caso, irei divulgar algumas ideias que entendo que devam ser pensadas, «at least».

Em primeiro lugar, não é compreensível a postura do presidente do clube, sendo o mesmo uma pessoa que considero de alta credibilidade e com provas profissionais dadas, apesar de jovem. Bettencourt entra no populismo como um verdadeiro político deste país, tece comentários que nem um “velho do Restelo” os proferia e defende assuntos e situações quando elas já não são mais defensáveis. A história do “Paulo Bento Forever” que minou os adeptos e claques sportinguistas, as acusações e ameaças dirigidas a estes, as frases utilizadas naquela conferência de imprensa (o treinador caucasiano), a história do Abel que aufere mais que o próprio, «o meu eu». Enfim…o ego, a teimosia e a «mimosidade» são adjectivos incontestavelmente excessivos naquilo que são as responsabilidades e a postura de um presidente de um clube. Não acredito que este volte mais a recuperar a confiança que lhe foi transmitida e aquilo que parecia uma grande união de todos os intervenientes e apaixonados pelo clube.

Segundo: a mentalidade! Constatei, nestes últimos anos, que os adeptos sportinguistas mostram uma grande satisfação, não apenas por ganhar ao Benfica, mas especialmente por ficar, na classificação final, à frente do Benfica. Esta mentalidade parece-me a mim contagiar a própria estrutura do clube, onde anda tudo satisfeito, sem aparentes motivos para realizar investimentos no plantel, remodelações na equipa técnica ou renovações nos dirigentes desportivos. Pensei novamente, mas desta vez não consegui concluir com obviedade: se os adeptos e dirigentes do Benfica enfrentam maior rivalidade com o FCP, o melhor clube português nos últimos 20 anos (normal, portanto!), porque razão não o fará também o Sporting e, ao invés, fá-lo com o Benfica? A proximidade dos dois clubes não me parece uma desculpa razoável, caso contrário, para os lados da luz, a diferença não seria substantiva. Além do mais, o perfil dos adeptos de ambos clubes não pode diferir tanto assim.

Em terceiro lugar e relativamente ao planeamento e controlo desportivo, o primeiro responsabilizado deverá ser, sempre, o director desportivo. Deverá caber a este personagem o papel de confiscar as necessidades, colmatar as lacunas do plantel e, inclusive, planear o longo prazo do clube, antecipando as quebras de rendimento dos jogadores com mais idade. Para o efeito, comunicar com o treinador e staff técnico é indispensável e, igualmente, a negociação de um orçamento limitado com o presidente ou com o departamento financeiro. Deverá ser definida uma escala, em que as contratações acima dos 3 milhões de euros (suponhamos) deverão ser canalizadas para jogadores claramente identificáveis e, portanto, com o mínimo risco possível. A minha opinião é a de que o director desportivo nomearia «chefias intermédias regionais» que o auxiliariam na prospecção pelos diferentes continentes. É, a meu ver, a maneira mais eficaz e de proximidade ao identificar as maiores promessas e as relações preço-qualidade mais favoráveis no curto prazo. Um director desportivo não pode, com eficiência, prospeccionar um jogador japonês a partir de Lisboa.

Ao treinador cabe o papel de, com as opções de atributos e características que solicitou, gerir o rendimento e o desenvolvimento da capacidade psicológica, técnica e física dos atletas. Ainda implementar o sistema de jogo que mais se adequa a ele, à equipa disponível e ao campeonato onde actuam, exigindo o melhor de todos e uma política de gestão de recompensas atractiva e «ancorada» aos objectivos pré-definidos para a época desportiva (uma política ainda muito pouco em voga nos campeonatos e na mentalidade portuguesa).

Esta é a minha visão como licenciado em Gestão, com matéria em gestão internacional de empresas e amante do desporto rei. Procurei conjugar uma série de aspectos que considero, bem delineados e com as pessoas certas, decisivos para o sucesso desportivo de um clube de futebol, seja em que campeonato for e tenha o clube a dimensão que tiver.

As melhoras para o Sporting Clube de Portugal…

Jorge Manuel Honório

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Futebol de Gabinete



Sporting Clube de Portugal: Case Study de 09/10 – Parte I

Hoje citamos um acontecimento, uma lição talvez, de como ter os piores 5 meses de uma época, quem sabe, de uma história de um clube. Refiro-me, obviamente, à gestão desportiva e financeira do Sporting Clube de Portugal neste início e consequente decorrer da época. Apontarei aquilo que para mim foram alguns erros cruciais e atitudes irreflectidas que foram tomadas por todos os intervenientes.

A pré-época do Sporting começa com as novas eleições para os órgãos sociais, culminando com a saída (já conhecida) de Soares Franco e a entrada de Bettencourt. Na escolha para o principal candidato à nova liderança, deu-se o primeiro su-ru-ru em Alvalade, com a polémica de que o actual presidente fora nomeado enquanto o verdadeiro e principal candidato, José Eugénio Dias Ferreira, se ausentara por 10 minutos em detrimento de um «aperto intestinal».

O 2º aspecto tem a ver com a esmagadora vitória do novo presidente Bettencourt e logo sobre um adversário de grande prestígio na sociedade portuguesa e que prometera nomes como o treinador Ericksson. Ao dar tamanho voto de confiança ao Sr. Bettencourt, os sportinguistas “enfraqueceram” o próprio clube e vou explicar porquê. O excessivo apoio, como se veio agora a revelar, ao actual presidente culminou no acomodar da situação do clube e no desinvestimento do plantel de futebol, já que acredito que o presidente tenha pensado que com tamanha votação e com uma classificação sempre razoável, especialmente à frente do Benfica, os destinos do clube e o prestígio e imagem do seu presidente estariam sempre assegurados (afinal de contas ninguém antes tinha feito mais que isso). Seguidamente, a abordagem ao plantel de futebol por parte da direcção e o contraste entre os objectivos assumidos pela direcção e a esperança dos adeptos nunca acabaram por convergir.

E assim seguimos para o 3º problema diagnosticado: o director desportivo e o plantel de futebol. Como sabem os sportinguistas acerca do ex-director desportivo, o Pedro Barbosa, nunca teve um papel de destaque, importância e peso na estrutura do clube. Um elemento que nunca se conseguiu impor, que raramente acertou nas contratações e que, além disso, causava instabilidade junto do banco de suplentes com imensos insultos aos árbitros e recebendo, inclusive, assobios dos próprios adeptos. Para mim, teria de ter sido o primeiro a “cair”.

O treinador Paulo Bento. O ex-benfiquista foi um fenómeno raro em Alvalade. Nunca um treinador despertara tanto sentimento (bom e mau) no clube de Alvalade, pelo menos nos últimos 20 anos. Paulo Bento assumiu-se como uma figura por vezes ridicularizada, por vezes excessivamente disciplinada. Emocionalmente instável, teimosamente individualista e irritantemente inamovível, o ex-treinador do Sporting acabou por sair pela porta pequena, a meu ver sem qualquer culpa própria e vítima do descalabro de toda a estrutura, a começar com a entrada de José Eduardo Bettencourt.

Obrigado a gerir um plantel com enormes lacunas e, ainda por cima, a ter de, com este, assumir uma luta pelo título completamente irreal, Bento apenas pecou pelo facto de, tal como Pedro Barbosa, não se conseguir assumir perante os argumentos da direcção. Não acredito que as lacunas não estivessem identificadas pelo treinador. Defesa direito, defesa central, defesa esquerdo e, essencialmente, um avançado de classe para o sistema táctico que se queria implementar.

Com todos os problemas a decorrer ao passar a época, começou o próprio presidente a descambar e a tecer afirmações das mais cruéis, inúteis e imbecis alguma vez citadas por um presidente do Sporting. Consideremos Sousa Cintra, mas esse era sempre na brincadeira. O presidente do Sporting perdeu, pelo menos, 1/3 dos seus apoiantes e para muitos mais, o crédito que obtivera à 5 meses atrás.

Como vemos, é caldo a mais para a sopa que se quis dar a comer aos adeptos do clube, agora revoltados, transtornados e desanimados. Basicamente: uma época para esquecer e cujos efeitos não sabemos até quando se prolongarão.

Jorge Manuel Honório

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Futebol de Gabinete


“The ugly truth”


Na rubrica desta semana pretende-se transparecer, aos leitores, a realidade económica do futebol em diferentes países do mundo, principalmente aqueles a que assistimos com maior entusiasmo e dos quais alguns são os nossos preferidos, verdadeiramente.

O artigo estará dividido em 3 pontos que considero fundamentais para perceber a realidade financeira mais susceptível de influenciar, no curto prazo, a capacidade de desenvolvimento do plantel de futebol e a margem disponível para o tão chamado “mercado de inverno”. Os 3 pontos estão relacionados com as receitas operacionais dos clubes (Publicidade+patrocínios+direitos televisivos+quotizações+receitas de bilheteira+cativos+etc), aquilo a que chamei de “probabilidade de incumprimento”, em que relacionei as dívidas a pagar em menos de 1 ano (que obviamente prejudicam o dinheiro em posse do clube, já que tem que pagar de imediato) com o total da dívida/passivo e, por fim, um rácio de esforço salarial, baseado na percentagem de receita que é apenas destinada aos custos fixos/salários do pessoal. Nota para o facto destes valores disponíveis dizerem respeito à época transacta e não ao ano actual.

Começando então a nossa análise e dando uma olhadela no primeiro gráfico, indispensável a percebermos o dinheiro que recebem os clubes aí enunciados, constatamos enormes surpresas: desde logo, o facto do clube com maior receita ser o Newcastle (que, curiosamente, acabou por descer de divisão), o que nos dá a certeza da eficácia do modelo de gestão da Liga Inglesa, o PSV da Holanda na 2ª posição pelo facto da liga Holandesa ser menos competitiva que a liga portuguesa, a receita da Juventus ser praticamente a mesma que a do Nápoles e um lutar pelo título italiano e o outro não e, talvez aquele mais “chocante” para o português: o nivelamento da receita de um clube como o Racing de Santander, que luta pela não descida em Espanha, com a receita dos 3 grandes em Portugal. Há quem conclua, com legitimidade, que, na verdade, os 3 grandes de Portugal lutariam pela manutenção no campeonato espanhol. Eu prefiro antes acreditar que essa receita será mais proveniente de publicidade e direitos de transmissão, que de receitas de bilheteira. Deixa, todavia, muito que pensar…













O segundo ponto, comparando os 3 grandes em Portugal, serve-nos para nos elucidar acerca do clube português com a tesouraria mais “apertada” no final do ano passado. O que procuro aqui relacionar é o peso das dívidas correntes no total das dívidas correntes e permanentes, onde se obtém a % de “aperto na tesouraria” e pelo qual se entende a restante % como o dinheiro liberto para “gastar”. Verificamos, por exemplo, que o clube mais folgado para poder gastar em transferências era o Sporting (mais de 60% de fundos libertos). O clube com menos fluxos de caixa era o Porto. (mais de 20% libertos). As restantes conclusões ficam a vosso cargo…












O último ponto que decidi abordar está relacionado com a verba da receita que é canalizada para o pagamento a staff, jogadores e pessoal do clube. Neste campo, verificamos que o FCP é aquele que mais se “dedica” a remunerar o seu pessoal, provavelmente devido à participação na “Champions” e aos avultados salários de jogadores que, consequentemente ou não, acabaram por ser vendidos. O Sporting foi o clube que menos receita usou para incentivar o seu pessoal. Fazendo uma previsão do ano actual, creio que, veremos o gráfico do Benfica aumentar (mas não muito, crença minha porque a receita vai aumentar bastante também) e que, no caso do FCP, a taxa vai baixar. O Sporting deverá aumentar também já que a receita deverá cair, alavancando o peso dos salários, a não ser que eles sejam “cortados”. Duvido.












Jorge Manuel Honório


sábado, 19 de dezembro de 2009

Futebol de Gabinete

A cor no dinheiro: sim ou não?

Nos últimos tempos tem-se falado muito dos novos produtos financeiros associados aos clubes de futebol cotados em bolsa, sendo que parece um dado adquirido que, em tempos de crise financeira e de baixo juro, os investimentos financeiros da banca deixaram de ter o retorno desejado para o consumidor. Alguns parecem ter-se inclinado para a subscrição de obrigações dos clubes. Refiro-me, mais especificamente, à recente oferta pública de subscrição de obrigações do Futebol Clube do Porto, cuja procura ultrapassa já no dobro a oferta. Segundo os responsáveis pela operação (Millenium BCP e Espírito Santo Investment), as intenções de subscrição perfizeram cerca de 220% do montante máximo da operação.

Perante as baixas taxas de juro do mercado, os depósitos bancários deixaram de ser atractivos, dando lugar às elevadas rendibilidades prometidas pelas obrigações, produto que remunera bastante mais quanto menos elevada a taxa de juro do mercado. O FCP colocou, recentemente no mercado, uma emissão de 3.600.000 acções ao preço nominal de 5€/obrigação, oferecendo uma remuneração anual de 6% e no prazo de 3 anos (18% na maturidade). A questão que pretendo aqui esclarecer é se esta rendibilidade oferecida é realmente suficiente para garantir o sucesso da emissão.

O mercado obrigacionista é claramente menos arriscado que o mercado de acções mas é, mesmo assim, um mercado de produtos com risco e que não assegura a 100% o capital, sequer. Olhando para a rendibilidade anual de 6%, ela representa uma taxa bastante atractiva tendo em comparação o que os restantes produtos nos proporcionam actualmente. Mas atenção! Há que conhecer profundamente este mercado e como se processa. A rendibilidade nas obrigações é variável, sendo sensível a aspectos como a evolução da taxa de juro no mercado, o número de resgates após cada ano, o prémio de default (incumprimento) ou o risco de falência da sociedade. Por exemplo, este portfolio de obrigações do FCP vale actualmente:

V = (3.600.000*0,06)/(1+0,3%) + (3.600.000*0,06)/(1+0,3%)^2 + (3.600.000*0,06+5)/(1+0,3%)^3 = 644.136 €

Suponhamos, agora, que no 3º ano de vigência (2012), a taxa de juro cresce para 2,5% e, na medida em que o FCP não foi campeão, 1.500.000 acções sofrem um resgate (a juntar a outras 300.000 no 2º ano) porque os investidores conheceram, entretanto, melhores produtos à data e quiseram desistir:

V = (3.600.000*0,06)/(1+0,3%) + (3.300.000*0,06)/(1+1,7%)^2 + (1.800.000*0,06+5)/(1+2,5%)^3 = 507.078 €

Portanto, se tivéssemos subscrito 2% desta carteira em 2009, teria-nos sido prometido um lucro de 12.883 € no final dos 3 anos (em percentagem do preço total). No entanto, com estas condicionantes, teríamos, afinal 10.141 € ao fim dos 3 anos. Perderíamos, aproximadamente, mais 2.000 €.

A reter então:


1. A especulação dos activos no mercado financeiro é em algo semelhante à análise especulativa que devemos fazer no futebol. No mercado, quando uma acção com pouca liquidez sobe bastante, isso significa que cairá também bastante porque não tem interesse no médio/longo prazo. No futebol, a leitura é semelhante: se o FCP já vai no tetra, é esperado que isso acabe em breve porque na nossa história, nunca se foi mais além que o penta. Segredo: nunca querer contrariar o mercado e nunca pensar contrariar a história do futebol.


2. A taxa de juro do mercado, ultrapassada esta fase da crise, aumentará e deste modo a rendibilidade da obrigação cairá.


3. Os investidores têm de ter em conta o prazo de vencimento dos títulos, pelo que uma carteira com duração de 3 anos investidos em produtos de um clube de futebol é altamente volátil. Lembremos que a SAD do FCP esteve, ainda o ano passado, em falência técnica.

Conclusão: será justo referir que esta é uma operação de risco superior à média do mercado. Um jornalista de um famoso jornal de economia disse mesmo que considerava esta subscrição caríssima. Não devemos procurar apenas as maiores rendibilidades e muito menos agir com o coração. Há que calcular a sensibilidade (tal como o fiz aqui) e ponderar o risco, porquanto maior a rendibilidade em empresas altamente instáveis financeiramente e bastante endividadas, maior o risco de incumprimento na remuneração aos investidores.

A informação sobre os restantes produtos no mercado e a realização de uma análise comparativa como a que demonstrei aqui hoje, embora simplista, será absolutamente necessária antes de darmos o remate final neste mercado de capital não garantido.

Jorge Manuel Honório


sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Futebol de Gabinete


O Modelo Português – um método adequado para a capitalização e competitividade no plano societário do futebol português - Parte II

Depois de termos apreendido a necessidade do aumento de competições para os clubes portugueses, em função da necessidade de mais receita destinada ao aumento da competitividade do plantel e dos activos que o compõem, venho agora apresentar-vos o modelo de sociedade que, para mim, constituiria um factor decisivo para a concretização do proposto.

Em primeiro lugar, defendo uma aposta na gestão centralizada das receitas desportivas. Um funcionamento centralista em que os clubes são geridos pela Liga de Futebol Profissional e as respectivas receitas televisivas seriam também, neste campo, alvo de um “imposto” para a Liga que as canalizaria para uma distribuição mais equitativa e obviamente séria para todos os clubes da primeira liga. Também aqui ganhavam os clubes maiores já que os mais pequenos teriam maior capacidade de atrair melhores jogadores e com mais potencial, portanto, de ascenderem a um grande por sua vez. Esta é uma medida possível, justa e que beneficiaria o espectáculo desportivo e a competitividade dos clubes na UEFA. É uma realidade já em expansão noutros países europeus como a Inglaterra, onde já se debate este tema.

A minha principal aposta, e esta sim característica de países pobres e de dimensão diminuta, está num novo modelo de negócio em sociedade. Um modelo de fusões e aquisições para os clubes de menor dimensão em Portugal, um modelo que creio que traria imensas vantagens estratégicas, financeiras e desportivas para os nosso clubes.

A fusão e a reestruturação de sociedades desportivas e clubes, resultando numa maior dimensão dos mesmos, permitiria alavancar os activos e proporcionaria maior margem de manobra financeira e a competitividade que daí advém. Apesar de se revelar uma solução bastante difícil de implementar, já que a rigidez da história e cultura de cada clube seria um obstáculo real (acredito que ninguém imagina e aceitaria uma fusão entre, por exemplo, farense, olhanense e portimonense ou Marítimo e Nacional da Madeira), tenho a certeza que resolveria bastantes problemas a estes 3, neste caso particular. Lá viria a conversa da tradição e da cultura como aconteceu quando entrámos para a CEE ou posteriormente quando aderimos à moeda única, mesmo apesar de todos perceberem que, no caso dos clubes, iriam ser muito mais competitivos assim.

Algumas potencialidades do modelo proposto creio serem as seguintes:

• Maiores recursos para capital de investimento;
• Maior atracção de melhores jogadores e profissionais de futebol;
• Menor peso do endividamento, assegurando uma gestão desportiva com maior margem de manobra e menor sufoco financeiro para as autarquias;
• Maior contenção de custos comerciais em função da própria dimensão;
• Mais flexibilidade no mercado de transferências e na captação de publicidade face à maior visibilidade do clube;
• Maior facilidade no acesso ao crédito bancário;
• Melhores condições para a promoção do futebol em campo e correspondente satisfação do adepto;
• Maior capacidade e competitividade com os clubes de outros campeonatos europeus.

A adopção destas medidas permitiriam actuar sobre os custos, sobre os proveitos desportivos, sobre as receitas publicitárias, sobre o espectáculo, as condições para o adepto e na maior “independência” face aos clubes grandes como se tem visto, ultimamente, com os clubes mais pequenos.


Jorge Manuel Honório