sábado, 21 de novembro de 2009

Bento: «Quiseram atingir 3 pessoas e afetaram todo o grupo»

EX-TREINADOR DO SPORTING EM GRANDE ENTREVISTA RECORD



R - O que aconteceu esta época era expectável, atendendo ao fraco investimento e aposta continuada dos rivais. Como é que achou possível lutar de igual para igual?

PB - O que me fez ficar no Sporting teve a ver com a entrada de José Eduardo Bettencourt para presidente e a continuidade de uma estrutura que ele pretendia manter. Tendo em conta alguma estabilidade do trabalho desenvolvido, até porque em três dos quatro anos estivemos perto de atingir o máximo objetivo - mesmo no ano em que apanhámos a equipa mais ou menos na altura em que o novo treinador agora encontra. Por isso, acreditámos que era possível estar na luta mesmo sabendo que o FC Porto continuava com uma cultura de vitória muito grande e estável em termos de equipa técnica, voltando a investir forte, enquanto o Benfica, tendo ficado sempre atrás do Sporting nas 4 épocas anteriores, tinha repetido um enorme investimento.

R - Acreditava que a estabilidade poderia voltar a dar coisas boas e que o Benfica poderia passar mais um ano sem acertar nas escolhas?

PB - Acreditávamos acima de tudo no nosso trabalho e que poderíamos combater duas equipas que, cada uma à sua maneira, tinha melhores condições que nós. Mas agregado a isso, outras condicionantes a nível desportivo e um determinado ambiente que se criou desde a primeira hora, acabou por afetar essa estabilidade. Por isso digo que estive 4 meses a mais, o melhor momento teria sido o final da temporada.

R - O ambiente criado em redor da equipa foi manipulado ou teve causas naturais?

PB - Houve um ambiente mais legítimo que sei distinguir. O direito das pessoas, durante ou no final de um jogo, manifestarem a sua insatisfação pela produção da equipa e pelo resultado, é normal. Isso só surgiu após o jogo com o Belenenses. Agora, tudo aquilo que foi anterior é que não é normal. Aliás, disse-o numa conferência de imprensa, que não sabia quem eram os atores mas sabia qual o cenário que estava montado.

R - E era...?

PB - Um cenário que pretendeu desde cedo atingir certas e determinadas pessoas, pensando talvez que não atingiria o mais importante que eram os jogadores. O problema é que atingiu toda a gente e numa fase muito precoce da temporada.

R - Mas não devem estar todos preparados para essa pressão?

PB - Todos devemos estar preparados para a cobrança, pressão, insatisfação. Agora é muito mais difícil para um grupo que não tem grande maturidade, combater determinadas situações. Não é normal a receção que tivemos depois de passarmos uma eliminatória (Twente). E não interessa que tenham sido duas ou três pessoas uma vez que quem o fez pensou bem no que queria fazer, foi concertado, não foi espontâneo. Não é normal que após a 1ª jornada do campeonato, empatando fora de casa, o ambiente se tenha repetido com mais gente.

R - O objetivo dessa ação concertada era a cabeça de Paulo Bento?

PB - Não, à partida não seria a cabeça do Paulo Bento. Mas o episódio repetiu-se após o jogo de Florença. Creio que o cenário foi montado e orientado em primeiro lugar para as três pessoas que saíram agora. E fizeram-no de duas maneiras: uma, atingindo o Pedro Barbosa para ver se chegavam ao treinador e outra pelo treinador para ver se atingia as outras duas pessoas. Isso parece-me evidente. A mim, faltou-me capacidade para tirar os jogadores desde ambiente e desta turbulência e colocá-los a jogar de maneira diferente. Mas como é óbvio houve questões exclusivamente desportivas que tiveram como consequência maus resultados e falta de qualidade do futebol praticado.

R - A estratégia, então, resultou!

PB - Não sei. Eu saí pelos resultados e por a equipa não ter capacidade para jogar melhor. A minha saída e a entrada de outras pessoas leva a que o ambiente se acalme, pois se calhar tem a consequência de tranquilizar outras franjas do clube. Essa obrigação eu não a tinha. O que tinha de fazer era treinar e defender os interesses do Sporting e isso acho que fiz de uma forma competente. Depois, preocupo-me pouco com o parecer. Gosto mais de ser do que parecer. Se quisesse sair pelo ambiente que estava criado, poderia ter saído quando viemos da Madeira (Nacional) em 2007/2008, quando invadiram garagem na oitava jornada de 2008/2009 após o jogo com o Leixões, quando parei à porta da academia depois do encontro com o Bayern - e tudo isto com a minha família por perto a assistir. Por isso, não era por 200 ou 300 indivíduos quererem invadir a garagem de Alvalade que eu iria pedir para sair. Passei por outros episódios enquanto jogador e nunca o fiz. Mas digo uma coisa: se um dia o Sporting, pela falta de militância que dizem ter neste momento, apenas tiver 6600 adeptos no estádio e os 6000 conseguirem calar os 600, o Sporting será melhor clube. Eu respeito-os a todos. Mas respeito muito mais os 6000 que pagam a gamebox e têm direito a algumas coisas do que os 600 que ainda recebem alguma coisa em troca e que têm o dever de apoiar.


ROGÉRIO ALVES NÃO TEVE COMPORTAMENTOS ÉTICOS

Record - A dado passo usou a imagem do Titanic e de alguém que saltava para o bote salva vidas. A quem se referia?

Paulo Bento - Foi antes do jogo em Florença, quando se fizeram passar mensagens com o intuito de denegrir e criticar o trabalho do diretor do futebol. E neste contexto algumas pessoas, nomeadamente o presidente da mesa da AG, o dr. Rogério Alves, teve algumas intervenções em que misturava a amizade com o trabalho. Nessa altura, tive o cuidado de dizer que quem estivesse dentro [do Titanic] não se pusesse fora. Essa mesma pessoa, que é uma figura do clube pelo cargo que ocupa e não tanto por aquilo que tenha feito na história do Sporting, pelo menos que eu conheça, teve ao longo destes 4 meses alguns comportamentos que não foram, na minha opinião, nem corretos nem éticos. Concretamente algumas declarações nesta fase final do meu trajeto. Mas eu sei o que me foi dito pessoalmente no passado e o que foi dito atualmente por outra via. Com a responsabilidade que tem, no clube e socialmente, o que disse sobre a tentativa de invasão das instalações do Sporting não me parece minimamente solidário nem correto. A nobreza que ele diz que eu tive na minha saída não foi a mesma que manifestou nestes últimos tempos.*

Fonte: Record

*As restantes partes da entrevista podem ser lidas na edição online do jornal Record.

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