sábado, 10 de abril de 2010

Futebol de Gabinete

Um coração prestes a explodir

Não foi com surpresa que recebemos, na última semana, a notícia que a SAD do Benfica emitiu mais um empréstimo obrigacionista ao mercado, já que as necessidades de financiamento vêm seguindo um caminho ascendente e a necessidade de colmatar os prejuízos do ano estão à vista.

Um empréstimo obrigacionista é, na minha opinião, um excelente instrumento de financiamento de empresas e clubes e (em muitos casos) mais barato que qualquer empréstimo junto dum banco. O grande problema é que nos empréstimos bancários trata-se de “convencer” os técnicos da banca de que o proponente tem solvência para cumprir com o reembolso e quanto maior risco os analistas detectarem nessa capacidade, maior são os juros que vão, consequentemente, cobrar.

No empréstimo obrigacionista, trata-se de “convencer” o público em geral (não apenas sócios como alguns julgam), já que até sportinguistas podem subscrever títulos do Benfica e vice-versa. Estes empréstimos procuram, diria, têm mesmo de favorecer o emissor e o subscritor, já que da parte do clube, quanto mais pessoas subscreverem os títulos, mais dinheiro o clube recolhe, garantindo para quem subscreva, o reembolso mais os juros no vencimento do empréstimo. Para os subscritores, trata-se de uma poupança de alto rendimento «à la clube», numa altura em que os depósitos a prazo dos bancos nos pagam menos de 1% (abaixo da inflação, fazendo-nos perder dinheiro sem «darmos por isso»).

Mais propriamente sobre esta emissão, diria que não é especialmente atractiva e passo a explicar. Tendo em conta os 6% que o clube paga por ano aos subscritores, o valor, assim às claras, é melhor que qualquer produto que esteja por aí no mercado. O problema aqui é se o Benfica consegue, ou não, cumprir com os pagamentos nos próximos 3 anos. Como se sabe e já foi aqui demonstrado, o passivo do clube subiu quase o dobro este ano, situando-se em mais de 300 milhões de euros. (Porto e Sporting têm cerca de 150 milhões de euros de passivo). Neste sentido, ninguém, com seriedade, consegue dizer o que é ou como está o Benfica daqui a 3 ou 4 anos.

Mais ainda, estas ofertas têm de ser comparadas com o mercado. A emissão obrigacionista do Porto pagou, também, 6% e a do Sporting 7,15% e são SADs muito menos deficitárias que a do Benfica. Se as outras pagam 6% e 7% e estão bem mais equilibradas que a do Benfica, não acho que o preço pago pela SAD da Luz seja um preço justo. A título de exemplo, a SAD do Manchester Utd é a mais bem estruturada do mundo e a última emissão foi um “flop” e teve de pagar mais de 8%. Apraz-me concluir que a emissão do Benfica está muito “baratinha” e paga muito pouco em relação ao elevado risco da dívida que representa para o público.

Se o Benfica conseguir angariar os 40 milhões de euros do empréstimo, cá estarei para dar os meus parabéns à administração financeira do clube, já que com 2 ovos conseguiu fazer 4 omeletas, mesmo que seja à custa da iliteracia financeira da sociedade portuguesa.

Jorge Manuel Honório, Finance analyst

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