quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Kanouté: "Nenhum professor tinha mão em mim"

O avançado do Sevilha explicou ao i porque é mais do que um avançado do Sevilha. No dia em que organizou o jogo contra a fome falou de religião e raças. E até de futebol...



Há três anos, Frédéric Kanouté marcou em todas as cinco finais ganhas pelo Sevilha (Taça UEFA, Supertaça Europeia, Taça do Rei, Taça UEFA e Supertaça de Espanha). Há dois, pagou qualquer coisa como 500 mil euros para impedir o fecho de uma mesquita na Praça Ponce de León, o principal centro de culto islâmico de Sevilha, onde joga desde 2005. Há um, recusou vestir a camisola do Sevilha com o patrocínio 888.com porque é um site de apostas, o que vai contra os princípios do islão, obrigando o clube a dar-lhe uma camisola sem publicidade em cada jogo nas primeiras cinco jornadas. Este ano, mais precisamente ontem, Kanouté foi novamente notícia por um motivo nobre, com a organização do jogo Champions for Africa, no Santiago Bernabéu, em Madrid.

Aqui não houve adversários, só amigos (entre eles, os internacionais portugueses Zé Castro, do Deportivo, e Makukula, do Kayserispor) que se juntaram por uma boa causa de um trintão, cuja mãe, professora de Filosofia em Lyon, lhe incutiu o amor pelas letras e o pai, operário das obras no Mali, pelo trabalho duro. E ambos o respeito pela diversidade de culturas, raças e religiões, o que faz dele um jogador peculiar e um homem excepcional, que vive com os pés na Europa e com a cabeça em África. O i tomou-lhe o pulso.

Qual o intuito de promover este jogo Champions for Africa?

A organização está a cargo da minha fundação [www.kanoute.com] e da Unicef. Os fundos vão para a designada Cidade das Crianças, nos arredores de Bamako, no Mali. Uma parte é para o alojamento. Vamos ter 12 a 15 casas, com dez crianças em cada uma, e com mães adoptivas. Já construímos um centro de saúde e ainda vamos ter escolas e centros de formação profissional. No total recebemos 150 crianças. As primeiras chegarão daqui a quatro ou cinco meses. Na Cidade das Crianças, há também a parte do desporto, graças a um convénio com a associação Futebol Solidário.

Quais são as diferenças entre África e Europa?

São dois mundos muito diferentes. Há muitas coisas que faltam em África e muitas coisas que sobram. Na Europa é o mesmo. Às vezes, o que falta aqui sobra ali e vice-versa. Mas admito que, por vezes, envergonho-me de tudo o que nós, futebolistas, temos. Aqui, na Europa, vês o comportamento de muita gente, das crianças, e parecem tristes, mas aqui têm tudo e queixam-se por nada. Em África, não têm nada e vivem alegres. Por isso, em África, a questão passa por educar e dar oportunidades. Já não se trata apenas de enviar comida e dinheiro. Isso já não chega. Sei disso porque vivo entre a elite e parte da minha família ainda continua no Mali sem as mesmas condições que eu.

Esse amor por África...

Nasceu com o meu pai. Ele é que é do Mali e transferiu-me essa dedicação e admiração. O meu coração chama por África, embora tenha nascido nos arredores de Lyon, em França. A minha mãe é francesa e o meu pai é maliano. Sou bicultural e a minha vida tem sido uma viagem intensa e vertiginosa de ritmos e culturas diferentes. Sou a prova provada que é possível a união pacífica de duas raças.

Por isso é que andou aos ziguezagues e foi internacional francês de sub-20 e selecção B antes de escolher a selecção do Mali?

Quando escolhi França, disse sim e pronto. Era jovem e nem pensei uma vez, quanto mais duas. É difícil dizer não a uma selecção que está sempre em todas as fases finais de Europeus e Mundiais. Ainda experimentei bons momentos, como o Torneio de Toulon-1998 [jogou até com Portugal e ganhou no desempate por penáltis, nas meias-finais da prova, ganha pela Argentina com Riquelme a ser eleito o melhor em campo], treinado pelo actual seleccionador de França [Raymond Domenech], mas depois saiu aquela lei da FIFA que dava a possibilidade de jogadores com dupla nacionalidade sem nenhuma internacionalização AA poderem jogar por outra selecção. E aí também nem pensei muito, pois estava sempre de olho na selecção do Mali, o país do meu pai. Tinha 27 anos, a França nunca mais me chamava e optei pelo Mali. Não me arrependo de nada e até vou a África mais vezes do que é costume, e assim posso estar em contacto directo com a minha fundação, o meu país e o meu continente.

E por que razão o Mali nunca foi a um Mundial?

Em 2006 estivemos realmente perto de ir à Alemanha. Julgávamos que éramos nós ou o Senegal, que estivera muito bem em 2002. Mas quem avançou foi o Togo, uma surpresa.

E não foi no jogo com o Togo que o deram como desaparecido?

[Gargalhadas] Essa foi uma história mal contada. Nunca vi um continente como o africano tão apaixonado pelo futebol. Todo o país [do Mali] estava indignado com a derrota frente ao Togo mas nunca senti a minha vida em risco. Tanto assim é que regressei a Inglaterra, quando ainda jogava no Tottenham, pelo meu próprio pé, sem qualquer problema. Quando chego a Londres e ligo o telemóvel, aparecem-me uma série de mensagens de amigos preocupados comigo, com o meu estado de saúde, porque tinha saído por aí que eu fora ameaçado pelos adeptos do meu país e até já estava dado como desaparecido. São aqueles excessos de um país com problemas sociais e económicos, em que as pessoas se servem do futebol para libertar toda aquela tensão. Tudo é bonito quando se ganha, mas quando se perde, é triste. Não condeno, apenas compreendo.

Essa rebeldia popular também existe em si?

Cresci em França, digamos... num bairro modesto, numa família humilde e normal. Mas, sim, é verdade que tive alguns problemas com a autoridade e era bastante irrequieto na escola. Nenhum professor tinha mão em mim. No futebol nunca dei problemas à autoridade.

A mesma rebeldia que o persegue. Não foi o Kanouté que se insurgiu contra o patrocínio de um site de apostas (888.com) nas camisolas do Sevilha?

Sim, é verdade, mas cheguei à conclusão de que não havia nada a fazer. Aquilo era um contrato da empresa com o clube e eu não podia evitar o que quer que fosse. Apenas pedi ao clube para não participar nos actos publicitários desse site, situação imediatamente entendida pelas duas partes.

Isso foi pouco tempo depois de se dedicar ao islão?

Nunca tive uma educação religiosa, mas sempre pensava em Deus e fazia-me muitas perguntas. Até que, aos 20 anos, fui à procura, digamos assim, de uma religião. A escolha do islão foi espontânea: pelas constantes viagem a África, por aquilo que via e retinha na memória, pelos meus amigos muçulmanos em França. Enfim, uma série de factores importantes que me fizeram ver a luz.

E hoje como olha para as outras religiões?

Há uma publicidade muito, muito má da religião. A religião deu maus exemplos ao longo da história. Agora dizem mal do islão, mas houve tempos em que o fizeram com o cristianismo. No fundo, a religião não é guerra nem confronto, é precisamente o contrário. O espírito da religião não é o medo, é conhecer o próximo.

E esse medo passa para os campos de futebol?

Claramente. Vivemos na sociedade do medo, que advém da falta de conhecimento. A ignorância gera medo. E salta das ruas para os estádios, que, cheios ou vazios, extravasam as suas ideias.

Há racismo em Espanha?

Um pouco, sim. Pessoas que dizem disparates em alguns estádios, mas poucas. Isso só reflecte a sociedade em que vivemos. Não basta ir ao campo de futebol e anular o jogo ou manda calar os infractores. Temos de ir à sociedade e educar as pessoas. Se queremos ser ricos, como pessoas, temos de mudar o nosso estilo, a nossa filosofia. Talvez pensar melhor, antes de falar, tentar conhecer melhor o próximo, estudar os outro, aceitar o outro. Só estou a transmitir o ensinamento dos meus pais. É do mais lógico e puro que há.

Fonte: I

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